não admira que Deus, se existir, deva ser ateu

Uma pessoa chega aos 40 e desata a exalar crises: crises da alma, que os médicos da cabeça querem curar à cabeçada, mesmo que não haja qualquer desvario mental mas tão somente a consciência de que, afinal, nunca fomos realmente sãos; crises do corpo, que outros médicos também querem curar, mas não há remédios que cheguem para tantos defeitos, do colesterol aos tremores dos músculos, dos diabetes às crises de bexiga, da distorção visual ao entupimento respiratório.

E há ainda quem fale em fé, quando na verdade somos apenas bens fungíveis. E descartáveis.
Não admira que Deus, se existir, deva ser ateu.

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Mais um que se suicidou

Mais um amigo meu que se suicidou. Na verdade, neste momento a amizade não era nenhuma. Pelo contrário. Mas chegámos a viver juntos, e com muita cumplicidade, a alucinação própria dos tempos em que sabe bem transgredir. Porque só assim pensávamos ser possível tornarmo-nos adultos.

Há alguns anos um outro amigo meu suicidou-se exactamente da mesma maneira como este, pouco depois de ter deixado conseguir usar a sua famigerada máscara da sanidade. Tal como sucedeu agora. E antes disso já tinha havido mais um, o primeiro a ceder a incapacidade de viver sob a loucura. E ainda mais um outro, que não chegou a suicidar-se, tecnicamente, mas tudo fez para morrer, até que a lotaria do destino lhe fez a vontade.

Nestas estranhas contas dos que ficam e dos que vão, tenho de registar mais dois: estão vivos, é certo, mas já não fazem parte deste mundo, pela simples razão de que decidiram afogar-se na insanidade.

Parece longo o rol. E é, com efeito. Com a particularidade de que estou a falar de amigos, mas de amigos a sério, daqueles com os quais crescemos, daqueles que ocupam para sempre as nossas memórias quando olhamos para trás e nos pomos a meditar no que fomos para sermos o que agora somos.

Não é fácil conviver com esta percepção, sobretudo quando temos pela frente a definhar aqueles que nos precederam na ordem de entrada na existência, pessoas que travam uma luta desesperada para se manterem vivas perante a evidência de que já não têm muito tempo. Nalguns casos, praticamente nenhum, pelo que a morte até seria um acto de bondade de quem manda nestas coisas. Para quem sofre a ausência de cá estar e para os que cá estão a sofrer por aqueles que se estão a ausentar.

Dizem que Deus tem desígnios insondáveis. Ao mesmo tempo que o livre arbítrio e o destino, como é bom de ver, se confrontam numa batalha titânica, que decerto não pode ser deste mundo. Não tenciono prestar homenagens a alguém, nem tão-pouco tentar avaliar os sentidos do suicídio ou da eutanásia e outras decisões afins. É que, para mim, na arena em que se manifestam as forças do bem e as forças do mal, começo a ter cada vez mais como certo um princípio: que venha o Diabo e escolha.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 20/01/13