O gosto e as armadilhas da subjectividade

Há bons e maus livros. Há bons e maus escritores. E de nada vale dizer, para o contrariar, que não é bem assim porque pode ser uma questão de gosto. Puro engano: o bom gosto existe e não é subjectivo. Significa isto que os críticos literários, enquanto intérpretes e guardiões do bom e do mau, têm sempre razão. Uma razão objectiva que não deve ser questionada. Mesmo que se discorde dela.

Parece controverso. Mas se assim é, só o é pela simples razão de que tendemos a avaliar de forma apressada o problema do bom e do mau, repetindo o erro de atirar tudo para o terreno confortável da subjectividade e da liberdade de opinião, um terreno escorregadio porquanto nele tudo é válido. O que não é verdade. Ou não deve ser.

Clarifiquemos. O bom gosto existe e não é subjectivo. A questão é que o bom gosto aceite como tal para o grupo X não corresponde necessariamente ao bom gosto partilhado e subscrito pelo grupo Y. Sucede pois que cada grupo, ao preconizar uma determinada escala de valores, mais não está a fazer do que a localizar a amplitude do gosto, isto é, a fixar as fronteiras do bom e do mau e as respectivas gradações entre os dois polos.

Isto acontece com uma sociedade, um grupo étnico, uma classe social, uma organização religiosa, uma associação política ou cultural, com todo e qualquer grupo de actores sociais que partilhem valores e interesses. Ora, é na matriz de identificação e de afinidades entre esses actores que reside a definição e a validação das regras que ditam o que é bom e o que é mau. Logo, para esse grupo, objectivamente há bons e maus livros, há bons e maus escritores. Pois é apenas à luz desses critérios que os críticos literários que ao grupo pertencem avaliam uma obra; interpretando-a de acordo com a escala de valores dominante, tida como válida e por todos aceite.

Neste quadro, e numa perspectiva mais alargada, percebe-se pois, por exemplo, o drama de Salman Rushdie com o romance «Versículos Satânicos». O mundo ocidental acolheu-o favoravelmente. O mundo islâmico repudiou-o. Mas ambos têm razão. É que a obra foi e é avaliada em função do que manifesta, nomeadamente do grau de concordância ou discordância com os valores em que se alicerçam os dois mundos em causa. Mesmo se a leitura for meramente literária, expurgando o exacerbo do folclore político e religioso enxertado na discussão.

O caso é paradigmático, pelo que insistimos: o gosto é sempre objectivo para um determinado grupo. O que porventura muda é a natureza do gosto conforme o grupo que o avalia. E só neste enquadramento é que se pode defender a subjectividade do gosto. Dito de outra forma, há vários bons gostos e maus gostos, mas todos são válidos se devidamente contextualizados.

De resto, é justamente através desta dinâmica que muito se pode aprender sobre a diversidade que nos rodeia. É que o gosto também manifesta as regras que determinado actor social decide subscrever e cumprir. Logo, o meu gosto e o gosto dos outros são indicadores preciosos de como eu e os outros nos relacionamos com a sociedade; à que pertencemos e, eventualmente, ao grupo social a pretendemos pertencer, pela adesão e/ou aceitação.

Se isto não é suficiente para perceber as armadilhas do discurso da subjectividade e da premissa tentadora de que os bons e os maus livros, como os escritores, e como a vida, só o são por uma questão de gosto arbitrário deixado à deriva (sem querer interpretá-lo e contextualizá-lo, sem querer aceitar que objectivamente há bom e mau gosto, em rigor, bons e maus gostos; numa palavra, esquecendo a importância do relativismo), então tudo é válido, incluindo a intolerância. Porque não há gosto que chegue para tanta diversidade.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 18/11/12

in «Literatas», nº47, Maputo, 12/10/12

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