Da colonialidade da cor: a falácia de rejeitar o racismo e ser cristão

A razão da cor é a sua ausência, a sua própria negação, porque objectivamente não passa de uma ilusão óptica e procurar sentidos no ângulo de reflexão e refracção da luz mais não é do andar em círculos até à infinitude. Contudo, é a cor que tem ditado as pequenas e as grandes tragédias da história da cidade dos homens. A cor das ideias, a cor do território, a cor da pele e dos olhos, a cor da existência humana, tanto mais que não parece ser possível habitar um mundo monocromático apartado da diferença.

Ainda assim, a grande ironia é que acabamos sempre por nos render aos ditames da cor. Um bom exemplo é rejeitar o racismo e ser cristão ao mesmo tempo. É que acreditar em Deus segundo os termos propostos pelo cristianismo é tão-somente uma forma de dar cor à religião, porque a adesão, consubstanciada na fé, implica subscrever um sistema de crenças que convida a defender o princípio de que a cosmologia cristã tem um papel de supremacia sobre todos os sistemas de crenças dos “outros” pela simples razão de que são obra do demónio. Dito de outra forma, aceitar uma proposição como uma verdade religiosa mais não é do que negar o que os outros consideram ser verdade, pelo que as “verdades dos outros” têm de se fundar necessariamente numa mentira. E mais: uma mentira que deve ser combatida, porque a missão de um bom cristão é levar a “luz” aos que dela estão afastados. O que quer dizer que, na prática, ser cristão implica rejeitar a diversidade como algo válido. Na melhor das hipóteses.

É claro que as mentes mais moderadas podem sempre agitar a bandeira da coabitação entre credos. E ainda bem que assim é. De resto, tem sido esse o discurso formal do Papa Bento XVI. Mas não resolve o problema. E insistimos. A componente estruturante da fé é a crença, a convicção da conquista da “verdade”, o que obriga a localizar todas as “outras verdades” no campo da “mentira”.

Esta dinâmica cultural assenta numa narrativa hegemónica que se traduz pela assunção de uma política identitária. Afinal, em tudo semelhante aos mecanismos que conduzem ao racismo, em rigor, ao racismo epistémico. Com efeito, a epistemologia eurocêntrica ocidental tendeu sempre a defender um padrão de pensamento que se obrigou a estudar o “outro” como objecto e não como sujeito capaz de produzir conhecimentos. Ou seja, reconhecendo apenas aos indivíduos ocidentais brancos a capacidade de produção de conhecimento científico, remetendo consequentemente toda a produção feita por indivíduos negros para a esfera do folclore e das cosmogonias mitológicas. Ora, isto mais não é, de novo, do que subscrever políticas identitárias que atribuem única e exclusivamente aos brancos ocidentais a legitimidade para a produção do conhecimento científico. Numa palavra, preconizando o chamado racismo epistémico e negando a diversidade do mundo. É que, tal como a religião, também a epistemologia adquiriu cor. E neste pilar se alicerçou o monopólio universal da distinção entre o verdadeiro e o falso, pondo em evidência a relação global etno-racional imperialista do Norte global num quadro de dominação do Sul global, uma metáfora da exploração e exclusão social, inerentes ao processo da reprodução do capital, associado a uma hierarquia epistemológica de saberes do mundo ocidental e à predominância de culturas com raiz eurocêntrica.

Eis pois o drama da cor. Se ser cristão implica negar a diversidade, as narrativas imperialistas pontuadas por uma utilização persistente e acrítica de noções e conceitos baseados em pressupostos coloniais e racistas, também beneficiários do malfadado atributo da cor, conduziram precisamente aos mesmos efeitos.

É evidente que se trata de uma problemática complexa, até porque há variáveis que merecem reflexões adicionais, como o fenómeno da miscigenação, mas uma coisa parece ser certa: a revisão crítica de conceitos hegemónicos definidos pela racionalidade moderna, aplicável igualmente aos afectos resultantes da supremacia da cosmologia cristã, a partir de uma perspectiva e condição de subalternidade, podem alavancar mudanças consideráveis. Revisões que devem abarcar a perspectiva histórica – repensar o passado e futuro à luz de novas perspectivas que não as do Norte global – a perspectiva ontológica – renegociar as definições do ser e dos seus sentidos – e a perspectiva epistémica – desafiar o privilégio epistémico do Norte global e a compreensão exclusiva e imperial do conhecimento por este reclamada.

Numa palavra, é necessário aprender a descolonizar a cor para combater o estranho paradoxo do seu engenho de colonialidade.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 29/07/12

in «Literatas», nº42, Maputo, 17/08/12