As minhas férias (na zona euro)

Fiz uma pausa. Não é que tenha estado de férias. Quer dizer, ainda tentei durante uma semana. Mas foi impossível gozá-las. É certo que arrendei uma casa perto da praia, no sul do País, deambulei pelos areais e por esplanadas com vista para o mar, ataquei a rotina com novas rotinas, mas nada funcionou. Fui incapaz de me desligar da realidade. A que percepciono, claro está. A que me pesa no bolso e faz recear pelo futuro.

Fiz uma pausa, mesmo após o regresso ao trabalho. Não é difícil cumprir tarefas maquinalmente, sobretudo quando se repetem há anos. Com efeito, decidi afastar-me de algumas obrigações por um breve período para conquistar tempo. Para pensar. Ou talvez nem isso. Para não pensar. Respirar apenas. O que não é fácil com uma atmosfera tão carregada de maus odores.

Este estado de espírito poderá parecer estranho à maioria dos que me lêem no Brasil. Mas para um cidadão português da classe média, um dos dois milhões de portugueses que pagam todas as contas, e dívidas, dos nove milhões de portugueses que as estatísticas oficiais dizem existir no País, não será decerto. Se o grande drama do Brasil tem sido a inexistência de uma classe média forte, não obstante o crescimento económico que se tem verificado nos últimos anos, o drama de Portugal passou a ser o mesmo em sentido oposto: a ameaça da extinção dessa classe. O que quer dizer que, a breve trecho, não haverá quem possa pagar as contas. E as dívidas.

Deste lado do Atlântico, a Norte, na velha Europa, a crise tornou-se um substantivo gasto e provavelmente perdeu já qualquer significado, pelo que não vale a pena perder tempo com ela. Basta dizer que o colectivo, que nunca foi colectivo, aprofundou o individual, que sempre foi individual, num mundo que entretanto se globalizou, num mundo que ganhou problemas comuns e perdeu soluções colectivas e, particularmente, individuais. Contra isto nada há a fazer. É uma herança incontornável.

Eis pois a razão pela qual não deixa de ser irónico que, tal como sucedeu durante décadas com milhares de brasileiros, que foram convidados a abandonar o seu País em busca de qualquer coisa melhor, os portugueses estão a receber um convite idêntico. Não é que seja algo inédito para um povo que cedo aprendeu a vaguear pelo planeta; o problema é descobrir o destino, o “El Dorado”, no tal mundo global com uma crise global. Não deixa de ser irónico que Portugal, que ainda há bem pouco tempo se viu pejado de emigrantes brasileiros, olhando-os com reservas e muita vontade de segregação, é bom que se diga, porquanto residia (e reside) neles, é o sentimento geral dos portugueses mesmo que velado, a origem de todos os males, ou de grande parte – o mesmo é aplicável a todos os emigrantes que cá chegaram – procura agora piscar o olho a terras de Vera Cruz em nome de uma suposta fraternidade histórica. A terras de Vera Cruz e ao espaço lusófono em geral. É o velho problema da política externa portuguesa: africana, atlântica ou europeísta?

A verdade, porém, é que, mesmo com acordos ortográficos e elogios rasgados da ideia da lusofonia, há muito que azedaram as relações de parentesco entre os dois países. Portugal e Brasil partilham apenas e mal a mesma língua e ponto final. O resto é uma mentira tão colectiva quanto individual. Afinal, bem vistas as coisas, que afinidades podem existir entre um País encravado no velho continente, sem recursos e em queda livre económica, social e política, com um subcontinente auto-suficiente com funções directórias na América do Sul?

Não é este precisamente o erro de percepção que impede os Portugueses de ver as correntes anti-lusófonas nos PALOP? Afinal, bem vistas as coisas, que afinidades podem existir entre a antiga potência imperialista pluricontinental e os países que tiveram de mergulhar em longas guerras para dela se libertarem, países que continuam sitiados pela incapacidade de reconciliação com as diferenças enxertadas pelos outros, os de fora?

Fiz uma pausa. Mas talvez não deva ser só eu a fazê-lo. Porque é urgente contrariar as rotinas. É preciso repensá-las e revê-las. As rotinas e as origens dos males. É urgente aprender a ler as novas realidades. Não basta afirmar que vivemos num mundo global e que as forças económicas se transnacionalizaram, institucionalizando novas escalas de valores e regimes virtuais. Já se sabe. O que não se sabe é como lidar com estas forças, pela simples razão de que continuamos a não querer conhecê-las mas tão-somente acusá-las.

Uma coisa é certa: a crise na zona euro, a crise no velho continente, a crise no centro gravitacional do imperialismo capitalista e colonial tem uma virtude: a de pôr em evidência, finalmente, de que as funções geopolíticas passaram a estar localizadas num mapa desconhecido que precisa de ser decifrado. É verdade que há uma herança, mas as relações de parentesco mudaram. E muito.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 07/10/12

Escritores lusófonos africanos: o dilema do passado

Em Portugal, na categoria de autores lusófonos de origem africana, a FNAC lista apenas dois nomes: Mia Couto e Pepetela. Com pesquisa, chega-se a mais dois: Ondjaki e José Eduardo Agualusa. Na Bertrand o mesmo, e é necessário vasculhar nome a nome: José Eduardo Agualusa e Pepetela. A Wook vai um pouco mais longe, mas obriga igualmente a uma pesquisa e com muitos filtros: além dos já citados, Henrique Abranches, Dulce Braga, Teobaldo Virgínio, Gabriel Mariano, António Aurélio Gonçalves, Arménio Vieira, Nelson Saúte, Arlindo Barbeitos e Manuel Lopes. Até é curioso, porque deixa de fora alguns autores com uma certa notoriedade em Portugal, mas recupera outros que são perfeitos desconhecidos no País.

Sabe a pouco e evidentemente está longe de representar a literatura africana escrita por africanos. Todavia, reflecte uma realidade; é certo que não passa de um indicador de popularidade, isto é, dos autores africanos de língua portuguesa que mais vendem – as regras comerciais e as estratégias dos livreiros portugueses assim o ditam – mas serve para arriscar algumas observações.

Dir-se-ia que para um País que quer assumir a liderança na promoção da lusofonia e na gestão dos activos culturais no contexto dos PALOP, a cultura em sentido lado não parece ser, afinal, uma grande prioridade para Portugal. Pelo menos no que diz respeito à literatura. Pela simples razão de que a deixou entregue à lógica do mercado. Faz sentido, embora careça de medidas complementares, e esse é o papel do Estado, de qualquer um, se ambiciona promover, quando reconhece valor, tudo aquilo que não seduz tão facilmente. O discurso é antigo e não vale a pena insistir, sobretudo quando esta retórica faz parte de um quadro de constrangimentos com outras urgências.

Contudo, a questão levanta também vários desafios para os próprios autores africanos, dentro dos quais avulta a capacidade de gerar atracção naquilo que produzem. Não é que isso deva condicionar a natureza do que escrevem, mas obriga a ter em mente uma regra de ouro: a diferença entre o livro como obra e manifestação artística e o livro como produto comercial e, regra geral, um bem fungível, que se gasta com o tempo. O que quer dizer que é evidente a necessidade de um compromisso e de uma clarividência sem afectos exacerbados.

Defender com orgulho que os escritores africanos dos PALOP no activo tendem a combater o exótico (recuperando as narrativas tradicionais e afastando o homem não africano do centro do universo para nele colocar o homem africano) para proceder a uma ruptura com o passado histórico e com os denominadores comuns etnocêntricos presentes nas ficções localizadas em África da maioria dos autores não africanos, espelha a vontade legítima da afirmação da nova literatura africana de expressão portuguesa.

O que parece ser perigoso é que esses mesmos escritores se deixem sitiar pela tentação do afrocentrismo, produzindo narrativas exactamente iguais, embora com os termos invertidos, às que tanto criticam, as do passado colonial e imperialista, às do “homem branco no centro do universo”. É perigoso, embora compreensível. Porém, com o preço de que é exemplo a listagem redutora acima indicada dos autores lusófonos africanos com notoriedade em Portugal.

Em poucas palavras, é sempre bom lembrar: o passado não seduz, o passado não vende. Porque não traz nada de novo.

in «Literatas», nº41, Maputo, 03/08/12