A menina do lápis preto

A menina pegou no lápis e quis saber. Para que serve? Com bonomia, a mãe explicou. Para pintares o mundo. Mas a criança ficou intrigada. A preto? Gostava mais de ter um lápis de cor.

O meu pai fez anos ontem. Poucas horas depois, a meio da madrugada, deu entrada no hospital. Com lágrimas nos olhos. E o pavor da morte galopante a assaltar-lhe o espírito. Afinal, não está a morrer. Porque a dor é tão arrasadora quanto lenta. E isso basta para apaziguar o medo. Há tempo demais para o digerir. É isso que faz um homem chorar? Ter tempo de sobra para consumir o destino?

A menina pegou no lápis e tentou. Esborratar uma folha de papel em branco com o seu mundo a preto. Mas permaneceu inquieta. Mãe, por que não posso usar outras cores? Porque tens apenas esse lápis. E não posso ter uns coloridos?, insistiu a criança. Podes, prosseguiu a mãe, mas se não consegues usar esse para que precisas dos outros?

O meu pai tenta acordar. Insiste em sacudir do corpo aquele torpor da inconsciência que o abraça na maca, perdida num corredor de um hospital. Já não chora, porque teve tempo de digerir a dor. Mas sente-se inquieto, porque nasceu o dia e ainda não está certo quanto ao que tem de pôr em ordem, na desordem que pressente. Se ao menos o meu pai tivesse um lápis, um qualquer, talvez pudesse esboçar um plano. Um simples lápis. E uma folha de papel em branco. É que ele bem sabe que o seu mundo vai perder a cor a qualquer momento.

in revista literária «Macondo», nº2, Maio – Julho 2011, São Paulo, 05/08/11