Primeiro Capítulo de A CIDADE DOS SETE MARES

Primeiro capítulo de “A Cidade dos Sete Mares“, disponível na página oficial do livro no Facebook em http://www.facebook.com/ACidadeDosSeteMares

Literatura/Ficção (capa mole, 15 x 23 cm, 270 p.)
Romance
2014 © Victor Eustáquio e Edições Esgotadas

À venda na WookBertrand e FNAC. Também na Amazon e na Livraria Cultura, no Brasil.

 

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Em Torres Vedras

Sou egoísta e verdadeiramente um chato: no que toca a literatura (ficção), escrevo só para mim, já se sabe, sem regras ou limites, sem pensar em alguém que seja. Mas depois tenho a ambição (e ambição é a palavra certa, embora também lhe pudesse enxertar a presunção) em ser lido. E até peço para que paguem por isso. Comprando o livro-produto que encerra o livro-obra. Como este que está agora à venda sob a chancela das Edições Esgotadas.

É a contradição que levo comigo nesta sexta-feira, dia 25, para a apresentação em Torres Vedras de “A Cidade dos Sete Mares”.
Ainda assim, fica o convite para todos aqueles que estiverem por perto: às 18h na Cooperativa de Comunicação e Cultura, no centro histórico da cidade.

Dou autógrafos, abraços e alvíssaras pela simpatia de quem se ocupa a ditar as regras do bom e do mau gosto literário.
Depois vou de férias… uns dias.

Devil in the body and your soul lost forever

In “A Cidade dos Sete Mares”

(…) No desequilíbrio entre uma faca e uma pistola, entre o prometido e o não cumprido, entre o enriquecimento ilegítimo e a possibilidade iminente da punição, o natural seria que o indiano desistisse; o natural seria que devolvesse o dinheiro e desatasse a fugir dali a sete pés, embora esteja ainda por demonstrar, nunca é demais recordar, como pode um homo sapiens correr de tal forma sendo bípede.
– Devil in the body and your soul lost forever.
Foram as últimas palavras do proxeneta, repetindo a frase que já havia pronunciado a propósito das suas incompatibilidades com hindus, antes de ser baleado três vezes. Definitivamente como alcoviteiro não parecia ser grande coisa.
A trinta e seis mil pés de altitude, quase no limite superior da troposfera, e em velocidade cruzeiro, a caminho de Londres, com a aeronave a ser sacudida por uma enorme turbulência devido a uma tempestade de areia no deserto saudita, Tiago lembrou-se das noites na costa ocidental indiana em que o mar parecia ser sopa. Água morna e praticamente sem ondulação. Noites serenas de frente para um mar adormecido, ou talvez morto. Tiago Penha permanecia sentado e com o cinto de segurança apertado, por indicação das hospedeiras – naquela época ainda não se falava em assistentes de bordo, nem sequer havia comissários a não ser os pilotos, homens que a pouco e pouco foram ocupando uma profissão até então exclusivamente feminina, substituindo os odores subtis do estrogénio pelos da testosterona – e da explosão de luzes na sinalética que encima os passageiros, sempre confusa e exagerada, quem sabe se não é para criar a ilusão de uma viagem espacial, enquanto Simão Saraiva insistia em transgredir, ao andar no corredor para trás e para a frente na parte traseira, a zona reservada para fumadores, já lá vão os tempos em que esse luxo era permitido.
– É sempre a mesma merda. Que grandes filhos da puta estes árabes! Até nos céus nos fazem a vida negra – resmungava ele, de cigarro na boca e em calções, com uma voz interior aos berros, a massacrar-lhe os nervos: Ya harmuk Allah! Ya harmuk Allah! Ya harmuk Allah!
Uma prece inusitada, porquanto fora tudo muito simples e prático. Com efeito, não havia tempo, nem lucidez, nem ferramentas para activar um plano Hollywoodesco com laivos mais macabros como o esquartejamento do cadáver. Simão limitou-se a arrastar o corpo até à beira-mar, enfiou-se a custo nos baixios do Índico e largou o indiano. A princípio, o sacana parecia não querer seguir viagem. Poucas ondas, pouco vento. Mas lá acabou por entrar na noite. E desapareceu.
Supostamente devia ter aparecido algures, talvez mais a sul, alguns dias depois. Mas o cadáver do muçulmano, atingido à queima-roupa com dois tiros no peito e outro no pescoço, nunca deu à costa, ou pelo menos nunca disso houve notícia. Soprava a monção de Nordeste, que talvez tenha ajudado, como chegou a ajudar em tempos idos as naus e caravelas lusitanas a caminho do cabo da Boa Esperança nas arriscadas viagens de regresso a Lisboa (…)
pp. 176

(http://www.edicoesesgotadas.com/livro?i=87)

Lançamento do livro “A Cidade dos Sete Mares”

Lançamento: 19 de Julho.

Já disponível através do site da editora Edições Esgotadas
em http://www.edicoesesgotadas.com/livro?i=87
(15x23cm / pp. 270)

 

Lançamento e apresentação no Museu Grão Vasco, junto à Sé, em Viseu, no dia 19 de Julho de 2014, pelas 16 horas.

 

 

de nada servia implorar

(…) Tinham acabado de vir do hotel Mandovi, em Panjim, de uma reunião com executivos de uma empresa de informática do Estado vizinho de Karnataka, num tuk-tuk vermelho, como eram conhecidos os riquexós motorizados, um verdadeiro exército, com táxis à mistura, a circular pela capital de Nova Goa, depois do preço devidamente regateado, se querem cem oferece-se dez e a coisa fecha-se pelas quinze rupias, conduzido por um hindu barbudo de tez escura, torrada, como grãos de café, decerto de uma casta inferior, com os olhos vidrados, que àquela hora já deveria ter fumado mais de um quilo de erva, sempre com um sorriso estampado na cara e a cabeça a abanar em jeito de não, mas que quer dizer sim, um verdadeiro “nim”, e os portugueses é que trocam tudo, já não bastava aquele odor intenso e agonizante a rosas a pairar por todo o lado, desde que Tiago Penha e Simão Saraiva haviam desembarcado no aeroporto de Dabolim, também chamado Vasco-da-Gama que passara a ser cognome e omisso, um fragância que aparentemente se deve à forte presença de pau de sândalo, uma árvore da família das santaláceas, em rigor o santalum album, alguém lhes explicou, embora estivesse por explicar como é o que o raio do cheiro dos arbustos se entranhava na comida, no hotel até as pizzas sabiam a rosas, e já não bastava aquele calor sufocante que arrastava consigo enxames de mosquitos e o suor a escorrer pelo corpo durante todo o dia. Todo o dia e toda a noite. O suor e a massa gordurosa de repelentes de insectos, nada devia ficar a descoberto, senão ainda se era vítima de uma qualquer estranha e indesejável reacção encefálica, com o crânio a inchar em forma de capuz caído sobre a testa, tipo «O Homem Elefante» de Lynch, sucedera a um turista belga, que havia decidido andar a correr pela praia, sem chapéu ou boné, atrás das vacas sagradas, uma garreada asiática que lhe valeu uma corrida de táxi de trezentos quilómetros vindo algures do Norte para lhe trazer uma lamela de comprimidos, que no hotel não havia e o médico britânico de serviço desesperava com tão esparsos meios, com tantas diarreias e gente a ser encaminhada para o hospital Bandare, à beira da desidratação ou de estômago vazio, porque era normal recusar comer, tudo sabia a rosas, já se disse, e a picante, chamas diabólicas de especiarias várias, de nada servia implorar “less spicy, please, very light, everything light, no spices, please!” (…)

São Paulo

Houve momentos em que o aparelho parecia abrandar e ficar parado no ar. Mas ele acabou por desistir de tentar distinguir as subidas das descidas. Doíam-lhe os ouvidos por causa das mudanças repentinas da pressão. E o corpo. E a alma. E o espírito. E tudo o que fazia dele um ser vivo e racional. Porque a tempestade, a verdadeira tempestade, não residia naquele cenário grotesco de faíscas arrancadas das profundezas das nuvens. Mas na longa e desprezível farsa que havia sido a sua existência. Ainda se lembrava bem, embora nunca o tenha revelado a alguém, daquele homem fardado de polícia que o mandou encostar-se à parede, de costas voltadas para ele, e lhe agarrou a nuca com força para lhe pressionar a cara contra a argamassa irregular no sopé do enorme edifício de escritórios que sabia que se erguia acima dele.
— Fica quieto e cala a boca! — rosnou-lhe o militar, enquanto um outro, prostrado mais atrás, na berma do passeio da avenida, mantinha o dedo de uma mão no gatilho de uma metralhadora HK MP5 K apontada à cabeça dele e a outra sobre uma pistola, uma Glock 18 também de nove milímetros, enfiada no coldre preso ao cinto.
– Mãos na cabeça! – voltou a ordenar o primeiro com um tom de voz ríspido, ao mesmo tempo que tentava sacar de um par de algemas. À volta dos dois agentes da Polícia Militar, havia-se juntado uma pequena multidão de transeuntes, acotovelada, com olhares tão curiosos quanto assustados, enquanto assistia com uma distância cautelosa, ditada pelo medo e uma cultura de violência, à detenção daquele desconhecido em plena rua à luz do dia, no centro nevrálgico de São Paulo. Uma ordem de prisão aparatosa porque parecia ser desproporcional, entre a atitude submissa e passiva do visado e o alarde do uso de armas de fogo para o efeito. Acrescia o SUV preto da PM, com vidros fumados e à prova de bala, imobilizado com o motor a trabalhar a poucos metros do local, em cima da calçada. Lá dentro, viam-se vários outros agentes, aparentemente em grande agitação. Na estrada, com três faixas de circulação para cada um dos dois lados, o trânsito estava completamente parado. Uma fila enorme de viaturas paralisadas no asfalto, em ambos os sentidos, embrulhada num cogumelo ascendente de fumo e gases de combustível e reflexos desiguais, de intensidade e direcção, da luz solar.
Um mupi digital com informações sobre a temperatura e a hora, plantado no piso calcetado ao lado do segundo agente da PM, indicava de forma intercalada 13:34 e 42°C.
Meditava à velocidade da luz sobre o que havia de fazer. Mas não precisou de muito tempo.
Ouviu-se o silvo de um projéctil e o homem fardado de polícia, que se preparava para o algemar, tombou de joelhos e acabou por ficar estendido por terra. Havia sido atingido na cabeça por uma bala. Uma mancha escura e viscosa começou a deslizar vagarosamente pelas pedras da calçada e pelos pedaços de massa encefálica que, com o impacto, se encontravam espalhados no passeio junto à parede do edifício, também manchada com espirros de sangue. Seguiu-se o som de uma rajada de metralhadora. E gritos. E troca de tiros. Atirou-se para o chão e sentiu uma dor forte nos cotovelos e antebraços pela forma pesada com que se deixara cair. Uma nova rajada da HK MP5 K. Disparos vindos do SUV. Alguns bursts. E a pequena multidão de pessoas a correr desordenadamente, atropelando-se, tropeçando sobre corpos já sem vida. Na estrada, soavam baques metálicos; viaturas a chocar umas contra as outras, o ronco dos motores em aceleração máxima misturado com a chiadeira de pneus a escorregar sob o asfalto, incapazes de se moverem. E mais uma turba de gente a saltar dos carros, em fuga, igualmente em gritaria.
Até que lentamente as coisas começaram a sossegar. A bordo do DC-10 da Ibéria. À medida que se fazia à pista de Barajas, em Madrid, deixando para trás, lá em cima nos céus, o manto encrespado de nuvens. Agora só faltava o voo para Lisboa.
in «A Cidade dos Sete Mares»

a mente e os seus delírios

(…) nestas coisas do devir carnal há sempre causas ocultas, dogmas que aparentam ser inexplicáveis, segredos que a razão humana não pode compreender, sobretudo quando não há razões mas tão-somente crenças, o que significa que tudo acaba por ser uma questão de fé, ou de fidelidade, já não basta a batalha titânica entre as forças do espírito e as forças da arimética, a alma e o corpo em perfeito desatino, ou o desvario da falta de tino, que é o mesmo que dizer a mente e os seus delírios (…)