da alma nunca abre mão

Passava horas sentado à frente de um monitor e teclava com fúria. Lia e relia. Apagava. Corrigia. Enxertava novos vocábulos. Aspirava à perfeição, à economia da frase certa, à solidez do parágrafo reflexivo. Com paixão, com certezas. Mesmo duvidando da qualidade da prosa, ainda que não fosse algo que lhe dissesse respeito. O artista pode prescindir de bússolas e mapas, mas da alma nunca abre mão.

abolimos a carne e as paixões

Dia 16.

Dão-nos comprimidos. Azuis. Vermelhos. Brancos. E de tantas outras cores. Obrigam-nos a engoli-los. Porque é necessário ensinar o que pensar, a regular o que se pode dizer. E ainda há as injecções. Para domesticar os nervos subcutâneos. E as liturgias. Para reencenar a ficção e ditar os costumes. A moral. A ética. Acabou a era da desordem. Vivemos na Grande Noite, que oculta o corpo e ilumina o espírito. Sabemos o que pensamos. Abolimos a carne e as paixões. Aceitamos a verdade. Libertámo-nos do mito. E dos embaraços da arbitrariedade. E da ilusão de que os indivíduos são únicos e indivisíveis.
A liberdade não se partilha; impõe-se.

o coxo aponta a pistola

O coxo aponta a pistola e dispara contra o peito do cadáver.
– Tens a certeza de que é só este?
– Viste mais alguém? – devolve o estrábico. – Eu é que sou o estrábico, como sabes.
– E eu sou o coxo! E depois? – irrita-se o coxo. – Precisas de dar nome às coisas? Pareces uma imitação rasca de um livro que ando a ler.
– O que quero dizer é que mancas da perna, mas vês melhor do que eu – sublinha o estrábico. – Pelo menos, por enquanto. Porque se continuares a ler assim vais dar cabo da vista.

com um tiro na boca não é lá muito fácil falar

– Sinto-me devidamente livre para expressar a minha liberdade.
– …
– Também sentes isso, não sentes?
– …
– Pois é. Tens razão. Com um tiro na boca não é lá muito fácil falar.
– …
– Mas olha que a culpa é tua. Porque é que ficaste calado?

o padre não diz coisa com coisa

Dia 13.

O padre não diz coisa com coisa. Ou não se percebe o que está a dizer. Está de costas viradas para o púlpito, de frente para o retábulo. Ao longo da extensa nave, reverberam apenas sibilos de uma voz apagada.
Faz-me lembrar as cobras. Ainda gostava de saber por onde defecam. Li algures que algumas só têm um pulmão. É difícil distinguir o macho da fêmea. Também não é que seja coisa que se pense quando se vê uma: querer saber o sexo das cobras, como se fizesse alguma diferença. Sucede o mesmo com os caracóis. São hermafroditas, mas ninguém se põe a matutar nisso. O que interessa é comê-los.

aqui todos dormem de dia

Dia 12.

Aqui todos dormem de dia. Ou tentam. Porque é à noite que o complexo acorda. Faz sentido. Vivemos na Grande Noite.
Houve hoje um incidente. Apareceu no corredor um estranho macho de olhos esbugalhados. Pele gretada e chamuscada. Não faço ideia do que lhe terá acontecido para ficar assim tão escuro.

a luz do sol é tão intensa que se tornou insuportável

Dia 10.

A luz do sol é tão intensa que se tornou insuportável. O Ministro explicou que o perigo reside no excesso da radiação electromagnética. Nada percebo sobre os mistérios do olho humano. Mas sei que há cegos. Muitos. Que perdem a vista por desafiar a ordem. A íris falha e a retina entra em combustão.
Os renegados dizem que é mentira: quem lhes queimou os olhos foram os algozes. Mas devemos acreditar nos cegos, que olham e não vêem?