O meu amigo cubano

Já lá vão mais de dez anos. Quando me pediram que o recebesse em minha casa durante alguns dias, confesso que tive dúvidas. Um tipo na casa dos quarenta vindo das Caraíbas de quem todos diziam maravilhas, sobretudo as mulheres?!

Acedi com algumas reservas. Mas também na expectativa de tentar descobrir que encantos teria afinal aquele caribenho. Era, e foi até agora, a sua primeira saída da ilha de Fidel Castro. Um “prémio” pelos seus bons ofícios com guia turístico em Varadero. Sociólogo de formação, natural de Matanzas. Porém, viajou sozinho. A mulher e os filhos ficaram em Cuba, suponho que como garantia de que ele não ousaria abandonar a família. Até porque, conforme se verificou, ofertas de ajuda para se instalar em Portugal não lhe faltaram. Convites para desertar, para fugir das “atrocidades” com que se convive naquela terra insular “amaldiçoada”.

Devo dizer que não preconizo soluções políticas de inspiração marxista nem qualquer forma de governação autoritária ou, no limite, totalitária, tenha a cor que tiver. Pelo que a vontade de desvendar o pensamento deste cubano foi muita, especialmente porque acreditava que seria possível fazê-lo estando ele fora daquele País.

Quando me encontrei com ele pela primeira vez, em Lisboa, senti um forte impacto. A empatia foi imediata, tão rápida quanto a percepção de que, na verdade, era uma pessoa sedutora, pela qual depressa nos apaixonamos. Porque trazia consigo as marcas do regime mas igualmente um sorriso genuíno de quem está feliz e grato por ser acolhido sem lhe fazerem perguntas.

Bem tentei seguir esse registo, pois em boa verdade não tinha qualquer legitimidade para desatar a questioná-lo. Se não o faria com um europeu ou com qualquer outra pessoa que viesse de um território em contexto não democrático, quer dizer, de acordo com a minha percepção do que é um “contexto não democrático”, por que razão haveria de o tratar de modo diferente, caindo no erro de lhe relembrar a sua condição? Contudo, falhei redondamente. E não foram necessários muitos dias para começar a massacrá-lo com perguntas. O que pensava realmente ele de Cuba? O que sentia ele na verdade? Ao fim de uma semana lá consegui o que queria. Ou julguei ter conseguido. Com lágrimas nos olhos, cabisbaixo, o meu amigo cubano disse-me apenas: “Crees que vives mejor que yo?”

No dia anterior, ele tinha comprado um relógio pela primeira vez na vida numa feira nos arredores de Lisboa, uma imitação rasca de uma marca qualquer. Extasiado, só queria saber: “Es hermoso, no? Crees que debo comprar?” Eu não sabia o que lhe havia de dizer. Devo ter resmungado qualquer coisa como “Tu é que sabes! Se gostas, porque não?”

Escusado será referir que ele regressou a Cuba no timing previsto. Mas continuamos a manter o contacto. Até hoje, já lá vai mais de uma década. Através de turistas portugueses que vão de férias para Varadero e Havana. De quando em quando, recebo chamadas telefónicas dos mais variados locais de Portugal com mensagens do meu amigo caribenho, decerto sussurradas num recanto qualquer, longe de olhares e ouvidos delatores. Mensagens de saudade ou simples saudações.

Na noite em que embarcou de regresso a casa, após uma viagem de carro entre Lisboa e Madrid – fui eu que fiz questão de o levar pessoalmente até Barajas, o único ponto da geografia migratória que lhe foi permitida (Varadero-Madrid-Varadero) – na despedida, o meu amigo era um homem abatido. Quer dizer, para mim, que já supunha saber avaliá-lo. Mas no rosto, a expressão era outra; ao mesmo tempo que dançava e perdia-se em sorrisos, cantava: «Porquê chorar? La Vida Es Un Carnaval».

É última imagem que guardo do meu amigo cubano. Que continua são e saudável em terras de Fidel Castro. Julgo eu.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 05/08/12