não admira que Deus, se existir, deva ser ateu

Uma pessoa chega aos 40 e desata a exalar crises: crises da alma, que os médicos da cabeça querem curar à cabeçada, mesmo que não haja qualquer desvario mental mas tão somente a consciência de que, afinal, nunca fomos realmente sãos; crises do corpo, que outros médicos também querem curar, mas não há remédios que cheguem para tantos defeitos, do colesterol aos tremores dos músculos, dos diabetes às crises de bexiga, da distorção visual ao entupimento respiratório.

E há ainda quem fale em fé, quando na verdade somos apenas bens fungíveis. E descartáveis.
Não admira que Deus, se existir, deva ser ateu.

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A má-sorte de ser livre

Chega um momento na vida em que a dúvida que mais incomoda é saber o que é a verdade. De tudo o que vivemos e recordamos ter vivido, pelo que contamos ou pensamos, que nem tudo se conta, há sempre uma área cinzenta, uma espécie de sótão, pequeno ou talvez grande, que tendemos a fechar para nele deixar tudo aquilo que não queremos ver mas de que não conseguimos abrir mão, deitar fora, esquecer, destruir. São lacunas que acabamos por tentar preencher com supostas vivências, que não correspondem necessariamente à verdade ou, no limite, nem sequer são nossas. São de outros, histórias que ouvimos, conhecimento de terceiros, que à força de ser repetido, se transforma numa memória. E numa verdade. Um verdade em perspectiva, pois é mentira. Pura mentira reinventada à nossa medida como uma verdade absoluta. E se concluirmos que isto é possível de acontecer com alguém, teremos forçosamente de acreditar que acontece igualmente com muitos outros. O que significa que nem a própria verdade de outrem, apropriada como uma verdade nossa, se funda necessariamente na verdade. Ela própria pode ser uma mentira, transformando-se assim numa dupla mentira. Quem conta um conto acrescenta um ponto. E de ponto em ponto preenchemos os vazios que quisemos deixar em aberto com mentiras. E de ponto em ponto edificamos o Mundo alicerçado numa mentira colectiva. Colectiva, por se estender a muitos, mas não comum, por que cada um intervém nela com uma reinvenção individual.

Também chega um momento na vida em que a dúvida que mais incomoda é saber o que é mais importante. O que projectamos para o futuro, que alimenta uma labuta com objectivo na esperança de atingir uma recompensa subjectiva, na medida em que não sabemos se seremos bem-sucedidos? Ou o que temos mesmo ao nosso lado, ou à frente, que não valorizamos, porque damos como certo, quando é certo que o certo facilmente se torna incerto, o certo que não apreciamos, porque acreditamos que há ainda muito tempo? E se o tempo nos escapa? E se o tempo nos troca os passos? É que o tempo é tão incerto que fundar certezas nele não passa de uma mera questão de fé. A fé que se esvai com facilidade se um contratempo dita a incerteza e a tristeza de não ter agarrado na certeza no tempo certo. De não ter vivido o que certamente poder-se-ia ter vivido, pois estava ali, mesmo ao lado ou à frente, à nossa espera, a pedir o nosso tempo, a nossa atenção, o nosso interesse.

Infelizmente também chega um momento na vida em que a dúvida que mais incomoda é saber se soubemos aproveitar e viver, na justa proporção daquilo que nos possa parecer razoável no dia em que nos sentirmos velhos, os ciclos naturais da existência, já para não falar nos imponderáveis do acaso, que rasgam, devassam, aniquilam esses mesmos ciclos, encurtando-lhes a duração, moldando-lhes a sua própria natureza, o que resulta igualmente numa sequência de ciclos, mas atípica, por ser inesperada. Na verdade, nem será muito atípica, porque o inesperado assome tantas vezes que o que parece anormal acaba por adquirir, também ele, um carácter de tipicidade, que só aparenta ser disforme pela forma atípica como percepcionamos o que chamamos de atípico.

É destas dúvidas que nasce a dor e a revolta contra com o que designamos por fado, destino ou má-sorte. Como a fé, artifícios simplistas e folclóricos para a conquista da sensação de conforto, ou para nos escondermos, ou para explicar o acaso e o infortúnio, quando é certo que não se tratou, nem se tratava, de nada disso. Apenas passámos ao lado, apenas falhámos o alvo, pecados que são duros de assumir, pelo que inventamos desculpas, máscaras, razões alheias, para afirmar como dogma a impossibilidade de controlar o destino, quando na verdade o destino não existe; mas tão-somente a derrapagem, a colisão, o acidente, o trauma, o drama que é dispor de livre arbítrio sem saber o que fazer com ele.

Chega um momento na vida em que tudo isto se torna um fardo tão difícil de carregar que preferimos morrer, mais uma vez com uma desculpa: a de que estamos velhos demais, cansados demais para continuar a viver, quando na verdade o que desejávamos era a vida eterna, poder voltar atrás, talvez na esperança de encontrar alguém que pudesse ajudar-nos a interpretar uma outra sinfonia da existência, voltar atrás para aplacar a fúria odiosa da dor dos “e se’s”, das más escolhas nas encruzilhadas, más porque nos penitenciamos por elas, desvios por outros trilhos com a inequívoca impossibilidade de corrigir a trajectória. Dá-me agora o teu amor que depois pode ser tarde. Goza o que tens que depois pode ser tarde. Vive o que a vida te deu que depois pode ser tarde. E tantas outras coisas. E se? E se? E se? E tantos outros “e se’s”. Um turbilhão de “e se’s” tão tempestuoso como o desgosto, o sofrimento, a dor profunda que lhe é inerente, a procelosa agonia de saber, ou suspeitar, de que tudo o que fizemos não terá passado de uma longa e endiabrada derrapagem pela vida.

É certo que se trata de um discurso pessimista e apagado. Na iminência da derrota, submerso tanto na resignação como no rancor, um ódio secreto e inconfessável que decerto serve para que alguns possam dizer, com um sorriso entredentes, que as coisas não são bem assim, para que afirmem que tudo isto é tão-somente mera poesia, palavras sem nexo de gente fraca, daqueles que não conseguem vencer o sabor da desdita ou a ele se entregam. Porque é mais fácil. Mas se por acaso for o caso, não o das palavras sem nexo, mas o da agonia da derrapagem, como seria possível verbalizá-la sem poesia? Não é na exaltação dos sentimentos que descobrimos a possibilidade de pensar?

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 19/08/12

Da colonialidade da cor: a falácia de rejeitar o racismo e ser cristão

A razão da cor é a sua ausência, a sua própria negação, porque objectivamente não passa de uma ilusão óptica e procurar sentidos no ângulo de reflexão e refracção da luz mais não é do andar em círculos até à infinitude. Contudo, é a cor que tem ditado as pequenas e as grandes tragédias da história da cidade dos homens. A cor das ideias, a cor do território, a cor da pele e dos olhos, a cor da existência humana, tanto mais que não parece ser possível habitar um mundo monocromático apartado da diferença.

Ainda assim, a grande ironia é que acabamos sempre por nos render aos ditames da cor. Um bom exemplo é rejeitar o racismo e ser cristão ao mesmo tempo. É que acreditar em Deus segundo os termos propostos pelo cristianismo é tão-somente uma forma de dar cor à religião, porque a adesão, consubstanciada na fé, implica subscrever um sistema de crenças que convida a defender o princípio de que a cosmologia cristã tem um papel de supremacia sobre todos os sistemas de crenças dos “outros” pela simples razão de que são obra do demónio. Dito de outra forma, aceitar uma proposição como uma verdade religiosa mais não é do que negar o que os outros consideram ser verdade, pelo que as “verdades dos outros” têm de se fundar necessariamente numa mentira. E mais: uma mentira que deve ser combatida, porque a missão de um bom cristão é levar a “luz” aos que dela estão afastados. O que quer dizer que, na prática, ser cristão implica rejeitar a diversidade como algo válido. Na melhor das hipóteses.

É claro que as mentes mais moderadas podem sempre agitar a bandeira da coabitação entre credos. E ainda bem que assim é. De resto, tem sido esse o discurso formal do Papa Bento XVI. Mas não resolve o problema. E insistimos. A componente estruturante da fé é a crença, a convicção da conquista da “verdade”, o que obriga a localizar todas as “outras verdades” no campo da “mentira”.

Esta dinâmica cultural assenta numa narrativa hegemónica que se traduz pela assunção de uma política identitária. Afinal, em tudo semelhante aos mecanismos que conduzem ao racismo, em rigor, ao racismo epistémico. Com efeito, a epistemologia eurocêntrica ocidental tendeu sempre a defender um padrão de pensamento que se obrigou a estudar o “outro” como objecto e não como sujeito capaz de produzir conhecimentos. Ou seja, reconhecendo apenas aos indivíduos ocidentais brancos a capacidade de produção de conhecimento científico, remetendo consequentemente toda a produção feita por indivíduos negros para a esfera do folclore e das cosmogonias mitológicas. Ora, isto mais não é, de novo, do que subscrever políticas identitárias que atribuem única e exclusivamente aos brancos ocidentais a legitimidade para a produção do conhecimento científico. Numa palavra, preconizando o chamado racismo epistémico e negando a diversidade do mundo. É que, tal como a religião, também a epistemologia adquiriu cor. E neste pilar se alicerçou o monopólio universal da distinção entre o verdadeiro e o falso, pondo em evidência a relação global etno-racional imperialista do Norte global num quadro de dominação do Sul global, uma metáfora da exploração e exclusão social, inerentes ao processo da reprodução do capital, associado a uma hierarquia epistemológica de saberes do mundo ocidental e à predominância de culturas com raiz eurocêntrica.

Eis pois o drama da cor. Se ser cristão implica negar a diversidade, as narrativas imperialistas pontuadas por uma utilização persistente e acrítica de noções e conceitos baseados em pressupostos coloniais e racistas, também beneficiários do malfadado atributo da cor, conduziram precisamente aos mesmos efeitos.

É evidente que se trata de uma problemática complexa, até porque há variáveis que merecem reflexões adicionais, como o fenómeno da miscigenação, mas uma coisa parece ser certa: a revisão crítica de conceitos hegemónicos definidos pela racionalidade moderna, aplicável igualmente aos afectos resultantes da supremacia da cosmologia cristã, a partir de uma perspectiva e condição de subalternidade, podem alavancar mudanças consideráveis. Revisões que devem abarcar a perspectiva histórica – repensar o passado e futuro à luz de novas perspectivas que não as do Norte global – a perspectiva ontológica – renegociar as definições do ser e dos seus sentidos – e a perspectiva epistémica – desafiar o privilégio epistémico do Norte global e a compreensão exclusiva e imperial do conhecimento por este reclamada.

Numa palavra, é necessário aprender a descolonizar a cor para combater o estranho paradoxo do seu engenho de colonialidade.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 29/07/12

in «Literatas», nº42, Maputo, 17/08/12