A má-sorte de ser livre

Chega um momento na vida em que a dúvida que mais incomoda é saber o que é a verdade. De tudo o que vivemos e recordamos ter vivido, pelo que contamos ou pensamos, que nem tudo se conta, há sempre uma área cinzenta, uma espécie de sótão, pequeno ou talvez grande, que tendemos a fechar para nele deixar tudo aquilo que não queremos ver mas de que não conseguimos abrir mão, deitar fora, esquecer, destruir. São lacunas que acabamos por tentar preencher com supostas vivências, que não correspondem necessariamente à verdade ou, no limite, nem sequer são nossas. São de outros, histórias que ouvimos, conhecimento de terceiros, que à força de ser repetido, se transforma numa memória. E numa verdade. Um verdade em perspectiva, pois é mentira. Pura mentira reinventada à nossa medida como uma verdade absoluta. E se concluirmos que isto é possível de acontecer com alguém, teremos forçosamente de acreditar que acontece igualmente com muitos outros. O que significa que nem a própria verdade de outrem, apropriada como uma verdade nossa, se funda necessariamente na verdade. Ela própria pode ser uma mentira, transformando-se assim numa dupla mentira. Quem conta um conto acrescenta um ponto. E de ponto em ponto preenchemos os vazios que quisemos deixar em aberto com mentiras. E de ponto em ponto edificamos o Mundo alicerçado numa mentira colectiva. Colectiva, por se estender a muitos, mas não comum, por que cada um intervém nela com uma reinvenção individual.

Também chega um momento na vida em que a dúvida que mais incomoda é saber o que é mais importante. O que projectamos para o futuro, que alimenta uma labuta com objectivo na esperança de atingir uma recompensa subjectiva, na medida em que não sabemos se seremos bem-sucedidos? Ou o que temos mesmo ao nosso lado, ou à frente, que não valorizamos, porque damos como certo, quando é certo que o certo facilmente se torna incerto, o certo que não apreciamos, porque acreditamos que há ainda muito tempo? E se o tempo nos escapa? E se o tempo nos troca os passos? É que o tempo é tão incerto que fundar certezas nele não passa de uma mera questão de fé. A fé que se esvai com facilidade se um contratempo dita a incerteza e a tristeza de não ter agarrado na certeza no tempo certo. De não ter vivido o que certamente poder-se-ia ter vivido, pois estava ali, mesmo ao lado ou à frente, à nossa espera, a pedir o nosso tempo, a nossa atenção, o nosso interesse.

Infelizmente também chega um momento na vida em que a dúvida que mais incomoda é saber se soubemos aproveitar e viver, na justa proporção daquilo que nos possa parecer razoável no dia em que nos sentirmos velhos, os ciclos naturais da existência, já para não falar nos imponderáveis do acaso, que rasgam, devassam, aniquilam esses mesmos ciclos, encurtando-lhes a duração, moldando-lhes a sua própria natureza, o que resulta igualmente numa sequência de ciclos, mas atípica, por ser inesperada. Na verdade, nem será muito atípica, porque o inesperado assome tantas vezes que o que parece anormal acaba por adquirir, também ele, um carácter de tipicidade, que só aparenta ser disforme pela forma atípica como percepcionamos o que chamamos de atípico.

É destas dúvidas que nasce a dor e a revolta contra com o que designamos por fado, destino ou má-sorte. Como a fé, artifícios simplistas e folclóricos para a conquista da sensação de conforto, ou para nos escondermos, ou para explicar o acaso e o infortúnio, quando é certo que não se tratou, nem se tratava, de nada disso. Apenas passámos ao lado, apenas falhámos o alvo, pecados que são duros de assumir, pelo que inventamos desculpas, máscaras, razões alheias, para afirmar como dogma a impossibilidade de controlar o destino, quando na verdade o destino não existe; mas tão-somente a derrapagem, a colisão, o acidente, o trauma, o drama que é dispor de livre arbítrio sem saber o que fazer com ele.

Chega um momento na vida em que tudo isto se torna um fardo tão difícil de carregar que preferimos morrer, mais uma vez com uma desculpa: a de que estamos velhos demais, cansados demais para continuar a viver, quando na verdade o que desejávamos era a vida eterna, poder voltar atrás, talvez na esperança de encontrar alguém que pudesse ajudar-nos a interpretar uma outra sinfonia da existência, voltar atrás para aplacar a fúria odiosa da dor dos “e se’s”, das más escolhas nas encruzilhadas, más porque nos penitenciamos por elas, desvios por outros trilhos com a inequívoca impossibilidade de corrigir a trajectória. Dá-me agora o teu amor que depois pode ser tarde. Goza o que tens que depois pode ser tarde. Vive o que a vida te deu que depois pode ser tarde. E tantas outras coisas. E se? E se? E se? E tantos outros “e se’s”. Um turbilhão de “e se’s” tão tempestuoso como o desgosto, o sofrimento, a dor profunda que lhe é inerente, a procelosa agonia de saber, ou suspeitar, de que tudo o que fizemos não terá passado de uma longa e endiabrada derrapagem pela vida.

É certo que se trata de um discurso pessimista e apagado. Na iminência da derrota, submerso tanto na resignação como no rancor, um ódio secreto e inconfessável que decerto serve para que alguns possam dizer, com um sorriso entredentes, que as coisas não são bem assim, para que afirmem que tudo isto é tão-somente mera poesia, palavras sem nexo de gente fraca, daqueles que não conseguem vencer o sabor da desdita ou a ele se entregam. Porque é mais fácil. Mas se por acaso for o caso, não o das palavras sem nexo, mas o da agonia da derrapagem, como seria possível verbalizá-la sem poesia? Não é na exaltação dos sentimentos que descobrimos a possibilidade de pensar?

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 19/08/12

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