O desafio de descolonizar o saber

(É necessário arredar de vez a tradição filosófica do pensamento etnocêntrico, sitiada por interesses epistemológicos de orientação colonial, mas também os próprios postulados epistemológicos impulsionados pelas diásporas africanas (…) igualmente reféns não do eurocentrismo hegemónico mas do afrocentrismo fundamentalista em tudo semelhante ao primeiro)

O Ocidente continua a acumular conhecimento sobre África, enquanto os africanos continuam a trabalhar, na sua maioria, para os investigadores do Ocidente. Porque são “consultores” e investigam com o dinheiro das ONG e das agências da ONU e de outras organizações supranacionais, as que ditam os objectos de estudo, temas que são do interesse do «mundo ocidental». De resto, o uso de línguas europeias para a redacção de artigos, ensaios e dissertações académicas reforça este processo de alienação dos africanos, que, a jusante, não concorrem para o grupo de destinatários deste conhecimento. É o drama do «consultancy syndrome» e da chamada «dependência intelectual» da comunidade científica africana, consubstanciado no que poderíamos designar por «paradoxo do financiamento à investigação».

É certo que também há intelectuais e investigadores africanos que querem “conhecer-se a si próprios para se transformarem”. É fruto de uma “tomada de consciência” – uma crescente racionalização teórica – da comunidade científica, quer ocidental, quer africana, dos novos desafios epistemológicos que África, como objecto de estudo, suscita (com o esvaziamento de poder do euromundo, num quadro pós-colonial, e o fenómeno da globalização e transnacionalização), processo que, aliás, tem estado a fragmentar progressivamente a unicidade da matriz teórica em que assentavam as problemáticas africanas.

Contudo, não se pode deixar de ter em linha de conta os constrangimentos endógenos impostos pelas políticas desenvolvimentistas dos Estados pós-coloniais (que foram encaradas durante a fase inicial da autodeterminação anticolonial de inspiração nacionalista como a solução para todos os problemas). Com efeito, forçados pelo subdesenvolvimento à adopção de programas de ajustamento estrutural e aproveitando a ajuda ao financiamento por parte de várias agências da ONU e de outras organizações supranacionais, a par das ONG – e lá voltamos ao Ocidente – uma parte considerável dos Governos africanos concentrou-se num desenvolvimentismo de cima para baixo, devido ao seu alinhamento marxista. O fundamento deste movimento encontra justificação no princípio de que as transformações económicas determinam em cascata as alterações culturais nas estruturas sociais, uma perspectiva que conduz a uma imagem deformada da dinâmica da mudança social e cultural. Acresce o facto de que estas políticas desenvolvimentistas rapidamente assumiram características de manipulação e mistificação ideológica com vista à mobilização e ao alargamento da base de apoio aos respectivos regimes. Resultado: o «esforço desenvolvimentista» acabou por falir, uma vez que, por razões eminentemente políticas (considerando a natureza militarista e autoritária dos regimes que se instalaram nos territórios africanos descolonizados) não foi avaliado o paradigma territorialista e a emergência do conceito de desenvolvimento local.

Percebe-se: se os constrangimentos perante os compromissos com o Ocidente enfraqueceram a relevância da produção de conhecimento feita por africanos, a mobilização desses mesmos investigadores para o «desenvolvimentismo» conduziu a um reposicionamento de interesses traduzido pelo esvaziamento de competências. Dir-se-ia, ainda assim, que vivemos num período de transição. Mas também com muitas indefinições. Com efeito, é incontornável uma ruptura epistemológica que conduza à distinção definitiva entre africanistas e africanos, bem como entre africanismo e Estudos Africanos com vista à descolonização do capitalismo global e à emergência das epistemologias descoloniais.

Para isso, é necessário, porém, arredar de vez a tradição filosófica do pensamento etnocêntrico, sitiada por interesses epistemológicos de orientação colonial, mas também os próprios postulados epistemológicos impulsionados pelas diásporas africanas, sobretudo aqueles que foram idealizados fora do continente africano, igualmente reféns não do eurocentrismo hegemónico mas do afrocentrismo fundamentalista em tudo semelhante ao primeiro.

Sem mudar este paradigma, falar de «consciência negra» será sempre um debate estéril. É o desafio que deixamos para voltarmos ao tema na próxima edição, dedicada precisamente à problemática da negritude e ao que resultou da “invenção” do africanismo.

in «Literatas», nº53, Maputo, 08/03/12

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A filha da putice do mundo moderno

Estes gajos foram sempre uns grandes filhos da puta. Vossa senhoria para aqui, monsieur para acolá, e os portugueses a tombar sobre terras que diziam ser tão férteis como exíguas para tantas necessidades a suprir. Do mundo cortado ao meio ao mundo fatiado conforme o desejo e a força. Mas já lá vão esses tempos. Os dos jacobinos e da maçonaria francesa, e da indecisão entre a Liberdade, Igualdade e Fraternidade e a Pax Britannica, sob o encanto da Belle Époque.

É claro que a coisa dita assim parece confusa e simplista, porquanto enferma dessa estranha arte de mesclar a História ao gosto das paixões. Mas por que razão havemos de querer ordenar o que nunca foi possível conciliar? A verdade não deve residir na interpretação mas no que é possível recordar; é certo que a memória deturpa, mas raramente diz mentiras. Sobre os sentidos que os escribas foram incapazes de registar. Não era essa a sua missão. Pelo que tudo é perdoável. Se bem que não invalide, de qualquer modo, a convicção, por sinal bastante conveniente, de que a filha da putice foi sempre a mesma. Dos franceses, dos ingleses e dos portugueses. E também dos espanhóis. E de toda a corja imperialista que fundou o novo mundo. Do hemisfério ocidental à Oceânia, que a Sul, já se sabia, ainda havia muito para descobrir. E reclamar. Como herança legítima da fé eurocentrista, pois nisto Cristo foi inequívoco, seguindo à letra os passos do Senhor seu pai e do Espírito Santo, fiel ao sacramento postular e epistolar dos textos de inspiração celestial, tanto os de outrora, das eras remotas dos filhos de Adão e Abraão, como os que se lhes seguiram, volvidos e revolvidos os túmulos dos patriarcas para semear e disseminar hordas bélicas de cristãos, judeus e muçulmanos.

E assim nasceu o mundo moderno. Ou parte dele. Abundante em grandes filhos da puta.

Em Portugal, Nação valente e imortal, do regicídio à implantação da República, embora em rigor a palavra devesse ser implante ou mesmo enxerto, que nada de verdadeiramente novo foi enraizado, por obra do nacionalismo provinciano desenhado à medida da pequena burguesia instalada nos confortos da urbis das sete colinas, evidentemente que em busca de novas mordomias, e que o bacalhau a pataco fosse à bardamerda, a filha da putice continuou a ser a mesma, agora transformada na voz íntima dos novos bons costumes, quer dizer, dos ateísmos, liberalismos e outros ismos revolucionários, incluindo a primeira institucionalização do regime de alternes, republicano, bem entendido, progressistas e regeneradores, lado a lado, ou frente a frente, ou de costas voltadas, mas ambos com aspirações messiânicas e unificadoras, e ambos em derrapagem, conduzindo a pátria para um pântano demencial de golpes e contragolpes, paradoxalmente tão palacianos e déspotas quanto a imperiosa pertinácia monárquica que visaram derrubar.

E assim se cunhou a República portuguesa, tão laica como leiga, até ao regresso d’el Rei Dom Sebastião sob a forma de um novo Estado, pelos bons ofícios e o desespero das gentes ainda com farda militar, a braços com a agonia das finanças por sanear e os indesejados resquícios jacobinos que insistiam em não dar tréguas. A direita republicana aplaudiu, alguns sectores monárquicos e católicos subscreveram. E lá a Nação acertou o passo com os afectos fascistas que seduziam a Europa. Para acossar o terror vermelho que soprava de Leste e o mercantilismo semita cada vez mais fervilhante e ameaçador que corroía os pilares do espólio imperial. Afinal, tudo um bando de ratazanas esfomeadas e uns grandes filhos da puta. De légua a légua, entre todas as léguas da enorme e velha plataforma expansionista pluricontinental, berço do mundo moderno que as caravelas uniram e desuniram, do obscurantismo medieval ao renascimento, da ciência e filosofia à magia e à feitiçaria.

Definitivamente estes gajos foram sempre a mesma merda.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 30/12/12

As minhas férias (na zona euro)

Fiz uma pausa. Não é que tenha estado de férias. Quer dizer, ainda tentei durante uma semana. Mas foi impossível gozá-las. É certo que arrendei uma casa perto da praia, no sul do País, deambulei pelos areais e por esplanadas com vista para o mar, ataquei a rotina com novas rotinas, mas nada funcionou. Fui incapaz de me desligar da realidade. A que percepciono, claro está. A que me pesa no bolso e faz recear pelo futuro.

Fiz uma pausa, mesmo após o regresso ao trabalho. Não é difícil cumprir tarefas maquinalmente, sobretudo quando se repetem há anos. Com efeito, decidi afastar-me de algumas obrigações por um breve período para conquistar tempo. Para pensar. Ou talvez nem isso. Para não pensar. Respirar apenas. O que não é fácil com uma atmosfera tão carregada de maus odores.

Este estado de espírito poderá parecer estranho à maioria dos que me lêem no Brasil. Mas para um cidadão português da classe média, um dos dois milhões de portugueses que pagam todas as contas, e dívidas, dos nove milhões de portugueses que as estatísticas oficiais dizem existir no País, não será decerto. Se o grande drama do Brasil tem sido a inexistência de uma classe média forte, não obstante o crescimento económico que se tem verificado nos últimos anos, o drama de Portugal passou a ser o mesmo em sentido oposto: a ameaça da extinção dessa classe. O que quer dizer que, a breve trecho, não haverá quem possa pagar as contas. E as dívidas.

Deste lado do Atlântico, a Norte, na velha Europa, a crise tornou-se um substantivo gasto e provavelmente perdeu já qualquer significado, pelo que não vale a pena perder tempo com ela. Basta dizer que o colectivo, que nunca foi colectivo, aprofundou o individual, que sempre foi individual, num mundo que entretanto se globalizou, num mundo que ganhou problemas comuns e perdeu soluções colectivas e, particularmente, individuais. Contra isto nada há a fazer. É uma herança incontornável.

Eis pois a razão pela qual não deixa de ser irónico que, tal como sucedeu durante décadas com milhares de brasileiros, que foram convidados a abandonar o seu País em busca de qualquer coisa melhor, os portugueses estão a receber um convite idêntico. Não é que seja algo inédito para um povo que cedo aprendeu a vaguear pelo planeta; o problema é descobrir o destino, o “El Dorado”, no tal mundo global com uma crise global. Não deixa de ser irónico que Portugal, que ainda há bem pouco tempo se viu pejado de emigrantes brasileiros, olhando-os com reservas e muita vontade de segregação, é bom que se diga, porquanto residia (e reside) neles, é o sentimento geral dos portugueses mesmo que velado, a origem de todos os males, ou de grande parte – o mesmo é aplicável a todos os emigrantes que cá chegaram – procura agora piscar o olho a terras de Vera Cruz em nome de uma suposta fraternidade histórica. A terras de Vera Cruz e ao espaço lusófono em geral. É o velho problema da política externa portuguesa: africana, atlântica ou europeísta?

A verdade, porém, é que, mesmo com acordos ortográficos e elogios rasgados da ideia da lusofonia, há muito que azedaram as relações de parentesco entre os dois países. Portugal e Brasil partilham apenas e mal a mesma língua e ponto final. O resto é uma mentira tão colectiva quanto individual. Afinal, bem vistas as coisas, que afinidades podem existir entre um País encravado no velho continente, sem recursos e em queda livre económica, social e política, com um subcontinente auto-suficiente com funções directórias na América do Sul?

Não é este precisamente o erro de percepção que impede os Portugueses de ver as correntes anti-lusófonas nos PALOP? Afinal, bem vistas as coisas, que afinidades podem existir entre a antiga potência imperialista pluricontinental e os países que tiveram de mergulhar em longas guerras para dela se libertarem, países que continuam sitiados pela incapacidade de reconciliação com as diferenças enxertadas pelos outros, os de fora?

Fiz uma pausa. Mas talvez não deva ser só eu a fazê-lo. Porque é urgente contrariar as rotinas. É preciso repensá-las e revê-las. As rotinas e as origens dos males. É urgente aprender a ler as novas realidades. Não basta afirmar que vivemos num mundo global e que as forças económicas se transnacionalizaram, institucionalizando novas escalas de valores e regimes virtuais. Já se sabe. O que não se sabe é como lidar com estas forças, pela simples razão de que continuamos a não querer conhecê-las mas tão-somente acusá-las.

Uma coisa é certa: a crise na zona euro, a crise no velho continente, a crise no centro gravitacional do imperialismo capitalista e colonial tem uma virtude: a de pôr em evidência, finalmente, de que as funções geopolíticas passaram a estar localizadas num mapa desconhecido que precisa de ser decifrado. É verdade que há uma herança, mas as relações de parentesco mudaram. E muito.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 07/10/12