“A Cidade dos Sete Mares” na Feira do Livro do Porto

Sessão de autógrafos na Feira do Livro do Porto neste sábado, dia 13, a partir das 18h30. Para rabiscos dedicados e de fino traço, abraços, e outras intimidades literárias, incluindo entrevistas, solilóquios e todos os actos que tratam da vaidade como um gesto artístico 🙂

No Pavilhão 74 (editora Edições Esgotadas), no Palácio de Cristal.

 

No domingo, dia 14, segue-se conversa para outros gostos. Anti-heróis, a estética do grotesco e livros escatológicos, na outra margem da literatura: debate com o autor de “A Cidade dos Sete Mares” e “O Carrossel de Lúcifer“.

«Literatura Série B em Portugal», às 21h00 na Biblioteca Municipal Almeida Garrett.

Até lá!

Primeiro Capítulo de A CIDADE DOS SETE MARES

Primeiro capítulo de “A Cidade dos Sete Mares“, disponível na página oficial do livro no Facebook em http://www.facebook.com/ACidadeDosSeteMares

Literatura/Ficção (capa mole, 15 x 23 cm, 270 p.)
Romance
2014 © Victor Eustáquio e Edições Esgotadas

À venda na WookBertrand e FNAC. Também na Amazon e na Livraria Cultura, no Brasil.

 

“A Cidade dos Sete Mares”: Na leitura de Luís Filipe Rodrigues

“A Cidade dos Sete Mares”: Na leitura de Luís Filipe Rodrigues

Numa aproximação preliminar é possível dizer que Victor Eustáquio, desde o seu primeiro romance – O Carrossel de Lúcifer – de 2008, é senhor de uma prosa torrencial, vulcânica, pulsional, explosiva, em certas páginas voluptuosa e encantatória; umas vezes, ácida e reverberativa, outras, melancólica e pungente. Não apresentando um discurso circular (como acontece em José Luís Peixoto) A Cidade dos Sete Mares polariza um estilo reiterativo, por vezes redundante, em que a narrativa avança por círculos, através de deslocamentos de sentido, onde impera uma descrição reflexiva sobre a fugacidade do tempo, o carácter efémero da existência e os grandes desígnios do homem, como a natureza do amor e da morte. E será a partir destes mesmos desígnios que o autor discute o problema da solidão, do fatalismo, do envelhecimento, do sentido da vida, bem como as incidências do erotismo, do sexo e do casamento. Temas desenvolvidos num tom de amargura e desilusão e dúvida (pp.178/179). Daí que, na minha opinião, este livro represente um acto de reconciliação, um ajuste de contas com a vida. («É urgente reconciliar-nos connosco próprios, de tão breve que é a vida» p.217). Ao fazer estancar o passado, o autor ergue uma fronteira clara entre esse intensamente vivido e o futuro, futuro entendido como um ‘nítido nulo’, um apelo, uma carta fechada que merece ser recenseada e decifrada.

Antes de mais consideremos três aspectos que nos podem levar ao coração do romance: o título, a epígrafe e a dedicatória.

Edimburgo dos Sete Mares existe. É a terra mais remota do Mundo, habitada por 280 ingleses, situada no extremo noroeste da ilha Tristão da Cunha, no Atlântico Sul, sob a dependência da Coroa britânica. «Os Sete Mares» eram um conjunto de mares referidos na Idade Média na literatura ficcional árabe e europeia. Desta lista faziam parte os mares conhecidos na Europa de então: mar Adriático, mar Arábico, mar Cáspio, mar Mediterrâneo, mar Negro, mar Vermelho e o Golfo Pérsico. Ora, o título A Cidade dos Sete Mares, para além de metáfora do desejo e de um desejo sem limites («o que queria era navegar pelos sete mares, que são nove, da cidade dos homens» p. 231/232) é também metáfora da vida, uma vida vivida no limite do risco e assente num jogo de ambivalências, ilusões e frustrações. Mas também quer significar, na minha interpretação, o amor distante, sempre ausente e sempre por achar, na medida em que tal título constitui o nome da «cidade mais remota do mundo» (p. 178), símbolo do desconhecido e da liberdade infinita, aspirações que  perseguem Tiago ao longo da narrativa. É útil esclarecer que a metáfora joga com elementos que pertencem a campos semânticos diferentes mas que têm características comuns, o que corresponde ao tal deslocamento de sentido que acima referi; pois através da metáfora estabelecem-se pontes mentais entre realidades que não se tocam.

Em segundo lugar, é preciso dar destaque à epígrafe pela relação que é possível estabelecer entre o seu conteúdo e a descrição mágica e misteriosa do acidente: «O mistério era outro e assomou-lhe sob a forma de luz […] e o impeliu a afrouxar a marcha até imobilizar por fim o carro»; «Foi então que ouviu uma voz […] – Há séculos que estamos a vigiar o teu planeta – continuou a voz. […] a Terra está em perigo e temos de agir de imediato». Ora este acidente de carro – que ao mesmo tempo se confunde com o aparecimento de um OVNI, descrito no início do livro (pp. 27-28) – permite fazer a ponte com o fenómeno vulcânico ocorrido na ilha de Lanzarote, na parte final do livro (p.255). Por outro lado, não é de menos importância o topónimo «Terra do Fogo», província donde é natural a mulher que tanto o enlevou.[1] Neste contexto recorde-se que o fogo é o símbolo do amor e da paixão.

Por fim, o autor dedica este livro a sua Mãe, entretanto falecida, que não teve tempo para o ler, nem para compreender as escolhas do filho. Por isso, esta escrita, tornada catarse, resulta de um impulso vital e necessário, e exprime um vínculo absoluto por alguém que se perdeu definitivamente. Atenção, não se trata de uma homenagem à memória da Mãe, antes a representação de uma ausência, a sombra viva de quem inspira, atravessa e une as pontas do livro. (cf. pp. 9, 25, 195, 217, 238, 245).

 

O que antes de mais nada importa é captar a intuição fundamental, apreender a linha directriz que confere unidade e sentido a uma obra, sem a esquartejar ou a resolver nos seus elementos. Os crimes aqui narrados, e são três[2], constituem um leit motif para atrair a cobiça do leitor, não são o cerne do romance. Eis alguns tópicos que permitem desocultar a trama romanesca.

  1. Este romance é o relato de uma crise. Uma crise pessoal, em primeiro lugar, que passa por um embate no domínio da fé e dos grandes valores que travejam a personalidade e a conduta do indivíduo e se conectam entre si (o livre arbítrio, a verdade, a ética, o destino, o problema do mal, a paixão, o corpo, a sociedade, a natureza das realidades Estado e Nação, etc). Mas este romance também torna patente a crise que grassa na Europa de hoje e na humanidade, a mesma crise que levou o filósofo Heidegger a dizer que o homem anda esquecido de si e que esse esquecimento é o pecado central desta sociedade tecnocrática e desumanizada. O homem tornou-se, assim, uma simples coisa, movido pelas forças da técnica, da política e da economia. É o relato de uma crise vivida no passado, sendo o pretérito perfeito a forma verbal utilizada pelo narrador. Vivida no passado, mas tornada presente pelo acto da narração.
  2. Filho degenerado da epopeia, o romance, enquanto género literário, tudo suporta ou parece suportar: o diário íntimo, a crónica jornalística, o ensaio filosófico, a historiografia, o enquadramento teatral, a técnica cinematográfica, a carta. Neste caso, A Cidade dos Sete Mares é uma longa crónica que integra um diário feito a duas mãos ou a duas vozes, a voz de Tiago e a voz de Maria Clara. Diário, cujo interlocutor é a filha de ambos, Ester, ainda no ventre da mãe. Ester está no passado, porque ainda não nasceu, mas é já futuro no imaginário dos progenitores. Deste modo, neste diário vamos encontrar o suporte que permite ao autor-narrador não só fornecer informações sobre os sítios por onde passa como assegurar a essa descrição uma linha diacrónica; na figura da Ester vamos descortinar o vínculo afectivo que liga Tiago a Maria Clara, apesar das suspeitas de que Clara não deseja a filha. E este é um dos enigmas. [3]

Ainda no âmbito das formas de expressão, um caso curioso neste livro é o uso da internet como espaço de narração, acompanhando o texto da primeira à última página. Não se trata de um mero artifício introduzido pelo autor, nem de um recurso à moda. A Web é, de facto, um espaço de conversação livre onde têm assento quaisquer falantes. A novidade é que tais inserções da Web – sempre entre parêntesis – de que fazem parte as inúmeras falas colocadas em contexto narrativo, funcionam de interlocutores ou ecos do próprio narrador. E esse eco, ao reverberar e prolongar a voz do narrador, cria a ilusão da existência de vários narradores, como se de uma polifonia se tratasse, pois é isso que caracteriza o debate, a existência de várias vozes.

  1. É preciso salientar que se trata do diário de uma viagem pelas grandes cidades europeias, realizada pelo casal em 2001 e programada para durar três semanas (Berlim, Praga, Viena, Veneza, Florença, Pisa, Génova, San Remo e Mónaco). Os primeiros romances europeus são viagens através do mundo, que parece ilimitado. E não será preciso citar Cervantes, Camões, Fernão Mendes Pinto ou As Viagens de Marco Pólo e A Epopeia de Gilgamesh. Mas deve saber-se que o género que define a grande literatura portuguesa é a viagem, muito por mercê da nossa aventura marítima. Hoje tornou-se uma moda a edição de livros de viagens. Qualquer viajante escreve, mesmo que não saiba escrever. O que não é o caso, por exemplo, de Baía dos Tigres (1999) de Pedro Rosa Mendes, uma obra-prima neste género literário.

Por tal demanda não será ousado dizer que A Cidade dos Sete Mares se insere nesse tipo de literatura, a narrativa de viagens. Porém, o que move o autor não é dar a conhecer o mundo, mas reflectir sobre os sítios por onde passou, sendo estes os lugares peregrinados: Lisboa, Madrid, Paris, S. Paulo, Buenos Aires, Cuba, Índia, Lanzarote. Acho que não me esqueci de nenhum. Verificamos, assim, que existe uma estrutura em cadeia – com a viagem turística pela Europa relatada no Diário (do cap. VII ao cap XIV) encaixada na tal outra viagem de trabalho, servindo esta como ecrã da matéria romanesca. Será um relato dentro de um relato maior. A este propósito é curioso notar a questão do tempo.

  1. Não existe um quadro temporal definido. Isto é, a narrativa não está organizada segundo uma ordem cronológica, não se rege pelos dias da semana, nem por meses, nem por anos. O que reforça a ideia anterior de que o vector fundamental que modela esta narrativa é o espaço. Não à maneira do Nouveau Roman, corrente literária em que o espaço era descrito enquanto realidade física e mensurável. Mas o espaço da memória. É a memória do narrador que conduz o leitor. Por sua vez, no diário de viagem pela Europa encontramos cuidadosamente registados não só o lugar, como o mês, o dia e a hora em que tais escritos são redigidos. Não se trata de uma contradição, mas de uma especificidade. É que essa viagem pelos múltiplos lugares do mundo parece traduzir a grande peregrinação do homem pela vida, e por um tempo indeterminado.
  2. Este romance é parco em número de personagens. O grande motor da intriga, em volta da qual tudo gira, é Tiago. Mas existem outras personagens: Maria Clara, sua mulher; Simão, seu amigo íntimo; duas rameiras, uma equatoriana natural de Quito com quem Tiago se encontra em Madrid e a loira de Wshuaia com quem se relaciona em Buenos Aires. Note-se, todavia, que os seus amores não se cingem à equatoriana e à natural da Tierra del Fuego, de quem nem sabe os nomes, mas é preciso citar «a colombiana Sofia Vergara ou a cubana Eva Mendes. Só para citar duas.» como diz o próprio narrador (p. 69). Este romance é parco em personagens porque não é um romance de intriga onde as histórias individuais se cruzam e contribuem decisivamente para a construção da tessitura romanesca; pelo contrário, como o próprio nome sugere, é um romance dos grandes espaços, narra a vida de uma só personagem, Tiago, em travessia pelos quatros do mundo. Não estando a intriga completamente ausente, A Cidade dos Sete Mares é sobretudo um longo e apaixonante texto onde se debatem ideias, se movem críticas, fluem emoções e paixões, circulam tensões e contradições. Contradições entre o que era e o que fingia ser. Sendo tal fingimento traduzido nas relações tempestuosas com Maria Clara; fingimento irreparável porque continua a amar uma relação moribunda (p.150).

Mas quem é Tiago? Tiago Penha é engenheiro informático, quarentão, casado e sem filhos, hipocondríaco, de barba esbranquiçada e aspecto pouco aprumado, prestes a reformar-se, alguém que trabalha como programador numa multinacional sedeada em Atlanta, nos Estados Unidos, sob as ordens do Centro de Operações de Londres. Este Tiago Penha prefere o estrangeiro a Lisboa, é um homem racional, «frio e duro como o aço», um ser devasso que consegue nos vinte anos que viaja pelo mundo por razões profissionais ter uma vida dupla que, segundo diz o narrador «é uma predisposição inscrita no seu código genético» (p.49). É alguém que nunca está bem onde está, quer fugir de si próprio, residindo aqui a sua natural tendência para a duplicidade. Embora o narrador diga que se trata «de uma matéria que merece algumas cautelas de análise» (p. 48). Por isso, esclarece-se mais à frente: «A ideia de fuga podia e devia ser encontrada noutra dimensão: a dos meros exercícios de criação ficcional; vontade de viver diversos papéis como um actor.»(p.49). Ou ainda mais incisivamente: «Grande parte desses ensaios de fuga localizava-se tão-somente no plano da imaginação» (ibidem). Ao fim e ao cabo, diremos nós, esse desejo e essa tensão não serão outra coisa senão o desejo de realização pessoal e a busca da identidade. [4]

Este «Tiago, o adúltero, Tiago, o cabrão, Tiago, o depravado» (p.33) é vítima de homicídio por envenenamento por parte de Clara, sua mulher. Maria Clara é uma mulher dócil, tímida e insegura, mas também determinada na sua decisão ao saber que era permanentemente traída pelo marido. [5] E talvez por essa razão sofra de graves problemas do foro psiquiátrico.

No quadro das personagens enumeradas merece destaque Simão Saraiva. Pois por Simão passa também o enigma, [6] referido quase no início do romance,[7] recebendo algum desenvolvimento ao longo do texto. Mas Saraiva não deixa de ser uma personagem secundária que, vivendo sob a tutela narrativa de Tiago, foi criada, na minha interpretação, para enquadrar e sustentar as derivas sentimentais e luxuriantes de Tiago, como os excessos da vida nocturna. Dele só se conhece a mania pelas armas, a atracção por negócios sujos e pela vida devassa e pouco mais. Foi este perfil que o levou ao mundo do crime. (pp. 119-123).

  1. Este é um livro denso e complexo. Mas a sua complexidade não deriva do número de personagens, como acontecia em Balzac, nem da linguagem utilizada (com muitos anglicismos provenientes da terminologia informática), nem das elucubrações de índole filosófica ou sociopolítica ou teológica, nem do arsenal de informações trazidas de diferentes saberes, mas de um trabalho que cruza vários géneros ou movimentos de linguagem. Assim, reconhece-se uma mistura de versões oriundas do ensaio filosófico, do jornalismo, do diário, do documento e do comentário na Web. Por outro lado, é complexo pelo recorrente jogo de contradições em que se emaranha, pois coabita no mesmo espaço narrativo a ideia de princípio e fim de tudo, porque nunca nada é dado por terminado e se assiste a um permanente e eterno recomeço. «Estou velho, mas ainda não estava, e estou farto, o que também não era verdade. É certo que pode parecer confuso e contraditório; porém, é disto mesmo que se fazem os paradoxos» (p.149)[8]

Para conclusão direi que Victor Eustáquio, em A Cidade dos Sete Mares, reúne as três possibilidades elementares do romancista, como refere Milan Kundera em A Arte do Romance: «conta uma história, descreve uma história, pensa uma história» (p.160).

Mas a história de quem, perguntar-se-á? A história de Tiago, diremos nós. A história da vida de Tiago.

Na verdade, uma história bem contada supõe uma boa intriga. Enquanto que uma narrativa não é necessariamente um romance, como nos diz Maria Alzira Seixo[9], porque a narrativa tem a ver com o relato puro, com a sequência lógica e temporal dos acontecimentos e a horizontalidade da atitude de contar, o romance baseia-se sempre na narrativa. Isto é, não há romance sem narrativa. Eustáquio privilegiou uma visão narrativa do processo romanesco e, neste caso, em torno do protagonista, Tiago Penha, seu alter ego.

 

Não há dúvida que estamos perante um bom romancista, e de contornos imprevisíveis. Se estamos perante um grande romancista, ninguém o sabe. Só o tempo o dirá. A verdade é que Victor Eustáquio tem condições e qualidades particulares para atingir, na literatura portuguesa, um plano de excelência: capacidade de trabalho, recursos efabulatórios e imagéticos, excelente domínio da língua, sóbrio sentido de humor, sólida informação, experiência de vida e visão do mundo.

 

Torres Vedras, 25 de Julho de 2014

(Sessão de apresentação da obra na Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras)

Luís Filipe Rodrigues

(Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa, concluiu a parte académica do mestrado em Literatura Contemporânea na Universidade Nova. Reside há quase quarenta anos em Torres Vedras, onde foi professor de filosofia do ensino secundário, para além de ter desempenhado um papel muito ativo enquanto promotor cultural e dirigente associativo. Atualmente integra a direção da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras e é coautor do ciclo «Conversas de Inverno». Com várias obras de poesia publicadas, foi distinguido com os seguintes prémios:

Prémio Revelação de Poesia 1982 da Associação Portuguesa de Escritores;
Prémio Poesia Maré Viva 85;
Prémio de Poesia Bocage 88 da Associação dos Municípios do Distrito de Setúbal;
Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho 2012)

_________

[1] Ushuaia, cidade argentina a três mil quilómetros de Buenos Aires, capital da província Terra do Fogo, (na Pantagónia) nome dado por Fernão de Magalhães, em 1520, por ter avistado fogueiras acesas pelos índios.

Ushuaia, terra natal de uma loira de olhos verdes, mãe aos 16 anos e aos 18 abandonada, por quem Tiago Penha se encantou perdidamente e com quem manteve uma relação fugidia em Buenos Aires.

[2] A morte de Tiago (marido de Maria Clara) por envenenamento e a morte de Ester (filha de Maria Clara), ambos os crimes cometidos por Maria Clara. E ainda a morte de um muçulmano cometido por Simão Saraiva, amigo de Tiago.

[3] «Tiago nunca conseguiu perceber ao certo a razão e aonde Maria Clara foi arranjar coragem para uma decisão tão radical. As discussões violentas ou os silêncios prolongados até à eternidade seriam de esperar. Mas matar o bebé e a própria capacidade de gerar vida dentro dela, quase imediatamente após a inesperada resignação – em boa verdade só na aparência – de Maria Clara à infidelidade de Penha, permaneceu para sempre um mistério» (pp. 74-75).

[4] O que faz lembrar os célebres versos de Mário Sá Carneiro: «Eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro»

[5] «Maria Clara, obrigada a abandonar o imaginário dos príncipes e princesas, que é disso que o amor se faz, o primeiro, coagida à insensibilidade e à frigidez total como se de uma condenação se se tratasse.» (p. 73)

[6] Vem a propósito dizer que todos os romances (como toda a arte, particularmente a poesia) se debruçam sobre o enigma do Eu. «Mas a busca do eu acabou e acabará sempre numa insaciabilidade paradoxal» (MILAN KUNDERA, A arte do Romance, Dom Quixote, p.39). Como acontece com a história de vida de Tiago Penha. A tal ponto que esta figura, enquanto personagem-narrador, na demanda do seu Eu, comanda toda a narrativa.

[7] «Em matéria de defesa pessoal ou de ataque, conforme a disposição – que, aliás, já lhe tinha valido alguns problemas com a Justiça, de que foi (mau) exemplo a indiana, em Goa, onde matou um muçulmano a sangue-frio numa praia virada para o Mar Arábico». (p.51)

[8] Apenas mais duas citações para sublinhar a consciência do paradoxo em que Tiago vive enredado: «se não amasse esse próprio relacionamento envenenado, ao mesmo tempo que amava o veneno de relações proibidas, se não tivesse passado a vida a fugir e a fingir, amarrado à monotonia da diversidade que tanto rejeitava como pela qual se deixava seduzir […] A demissão de existir. O que também era mentira.» (p.150).

«As pessoas são assim; inventam escuridões para obscurecer e desculpar o que lhes desagrada naquilo que se vê e não se pode esconder. Talvez por isso Tiago tenha criado aquele site, aquele fórum na web, […] Disfarçado de espaço de discussão, estupidamente para não encontrar mas para ser encontrado.» (p. 229).

[9] A Palavra do Romance – ensaios de genologia e análise, Livros Horizonte, Lx., 1986, p. 15

“A Cidade dos Sete Mares” em Torres Vedras

(…) Mudara-se após o cansaço de viver na pequena cidade da sua adolescência que se havia transformado num mero dormitório de Lisboa, impessoal, com uma inusitada identidade que não entendia; uma profunda mutação no mapa da sedimentação social, devido à proximidade com o admirável mundo novo de possibilidades da grande metrópole, lamentável eufemismo para a sede do antigo império pluricontinental português, fruto de um empreendimento marítimo colonial tão corajoso quanto patético no limite da sua implosão (…)

p. 13

Muito obrigado, Torres Vedras! Por poder ver e rever amigos de longa data, tantos deles perdidos na ausência, mas sempre presentes.

Um agradecimento especial à Cooperativa de Comunicação e Cultura, na pessoa da sua presidente, Inês Mourão, aos meus queridos amigos Luís Filipe Rodrigues e José Manuel Guinot, e sobretudo a todos os que dignificaram esta sessão de apresentação de “A Cidade dos Sete Mares” com a sua presença e paciência. Finalmente, deixo ainda uma palavra de apreço aos professores Jorge Ralha, Joaquim Moedas Duarte e José Nozes Pires, ao escritor Andrade Santos, e à Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Torres Vedras Ana Umbelino.

Um grande abraço a todos e até breve.

Fotos na página do livro no Facebook

Em Torres Vedras

Sou egoísta e verdadeiramente um chato: no que toca a literatura (ficção), escrevo só para mim, já se sabe, sem regras ou limites, sem pensar em alguém que seja. Mas depois tenho a ambição (e ambição é a palavra certa, embora também lhe pudesse enxertar a presunção) em ser lido. E até peço para que paguem por isso. Comprando o livro-produto que encerra o livro-obra. Como este que está agora à venda sob a chancela das Edições Esgotadas.

É a contradição que levo comigo nesta sexta-feira, dia 25, para a apresentação em Torres Vedras de “A Cidade dos Sete Mares”.
Ainda assim, fica o convite para todos aqueles que estiverem por perto: às 18h na Cooperativa de Comunicação e Cultura, no centro histórico da cidade.

Dou autógrafos, abraços e alvíssaras pela simpatia de quem se ocupa a ditar as regras do bom e do mau gosto literário.
Depois vou de férias… uns dias.

No Brasil, em edição digital

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O livro “A Cidade dos Sete Mares” está já disponível no Brasil via Livraria Cultura, em versão e-book.

Esta edição está igualmente disponível na Amazon.

Em Viseu

Viseu2Viseu1Muito obrigado, Viseu. Pelo carinho, pela simpatia, pelo entusiasmo.

Um agradecimento especial ao Museu Grão Vasco, na pessoa do seu director, Agostinho Ribeiro, à minha Editora Edições Esgotadas, e às incansáveis Teresa Adão, Ana Maria Oliveira e Ana Coelho, ao meu querido amigo Carlos Seixas, e sobretudo a todos os que generosamente dignificaram a sessão de lançamento de “A Cidade dos Sete Mares” com a sua presença e paciência.

Um grande abraço a todos e até breve.

Fotos na página do livro no Facebook