nação valente e imortal

(…) Estás marado ou quê?, repetiu a voz, mas Tiago Penha sabia que não era bem uma voz, mas apenas o som desordenado da sua mente a fazer eco de memórias, de frases que tinha lido, comentários que havia seguido, com paixão, com irritação, furibundo, extasiado, enlevado, naquele site, naquele fórum na web que havia criado, farto dos nítidos nulos e dos insucessos do webtracking, um espaço de discussão que depressa se transformou num avatar de confissões, primeiro a uma voz, depois a muitas, que a popularidade do sítio cresceu inesperadamente e atraiu multidões de penitentes em confissão, a busca do sacramento da reconciliação para tudo o que é irreconciliável, a tão desejada subida aos céus, até com relâmpagos e faíscas ou a possibilidade do paraíso já se ter despenhado, talvez em Fátima, algures entre Valinhos, Aljustrel e a Cova da Iria, tantos nomes e sempre a mesma peregrinação, para visitar as casas dos pastorinhos, e a Via-Sacra, e o Calvário, e os locais das aparições, não de alienígenas ou de outras entidades biológicas extraterrestres, mas de Nossa Senhora, o Anjo da Paz, Quereis oferecer-vos a Deus?, grita-se no santuário, ao lado de um pedaço de betão do muro de Berlim, ali chegado pelos bons ofícios de um emigrante português na Alemanha como “grata recordação da promessa feita por Deus para derrubar o comunismo”, obra do demo e de Karl Marx, que tanto se queria vingar daquele que governa lá em cima, mas acabou lá em baixo, enterrado, numa catedral subterrânea, como as grutas de Mira de Aire, afinal ali tão perto, do santuário e da subida aos céus, a viagem ao centro da terra, no País a que Tiago Penha estava prestes a regressar, a sua pátria e gloriosa nação, nação valente e imortal, entre as brumas da memória, sobre a terra e sobre o mar, tudo à roda num remoinho, com a poeira levantada pelo vento, e o som do pandemónio de trovões, e o bater do granizo nas superfícies de metal do avião (…)

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