Sair dali de pé é já uma sorte

Uma das formas de sinalizar uma auto-imagem deformada é pôr um tipo em tronco nu ou de boxers numa pequena sala, num hospital, enquanto espera que chegue a sua vez para fazer um qualquer exame clínico, mesmo que de rotina. No corredor, há várias macas com gente velha a definhar, ligada a tubos e fios e maquinetas a piscar que monitorizam sabe-se lá o quê.
Ainda que nos tratem por senhor, sabe-se bem que ali não há senhores nem senhoras: há pacientes, despidos de toda a sua existência, da memória do seu passado, da presunção do seu futuro, porque aquele agora não tem nome nem rosto. É apenas um número, como tantos outros que por ali passam.
Todos os dias, aos magotes.
Sair dali de pé é já uma sorte.

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