de nada servia implorar

(…) Tinham acabado de vir do hotel Mandovi, em Panjim, de uma reunião com executivos de uma empresa de informática do Estado vizinho de Karnataka, num tuk-tuk vermelho, como eram conhecidos os riquexós motorizados, um verdadeiro exército, com táxis à mistura, a circular pela capital de Nova Goa, depois do preço devidamente regateado, se querem cem oferece-se dez e a coisa fecha-se pelas quinze rupias, conduzido por um hindu barbudo de tez escura, torrada, como grãos de café, decerto de uma casta inferior, com os olhos vidrados, que àquela hora já deveria ter fumado mais de um quilo de erva, sempre com um sorriso estampado na cara e a cabeça a abanar em jeito de não, mas que quer dizer sim, um verdadeiro “nim”, e os portugueses é que trocam tudo, já não bastava aquele odor intenso e agonizante a rosas a pairar por todo o lado, desde que Tiago Penha e Simão Saraiva haviam desembarcado no aeroporto de Dabolim, também chamado Vasco-da-Gama que passara a ser cognome e omisso, um fragância que aparentemente se deve à forte presença de pau de sândalo, uma árvore da família das santaláceas, em rigor o santalum album, alguém lhes explicou, embora estivesse por explicar como é o que o raio do cheiro dos arbustos se entranhava na comida, no hotel até as pizzas sabiam a rosas, e já não bastava aquele calor sufocante que arrastava consigo enxames de mosquitos e o suor a escorrer pelo corpo durante todo o dia. Todo o dia e toda a noite. O suor e a massa gordurosa de repelentes de insectos, nada devia ficar a descoberto, senão ainda se era vítima de uma qualquer estranha e indesejável reacção encefálica, com o crânio a inchar em forma de capuz caído sobre a testa, tipo «O Homem Elefante» de Lynch, sucedera a um turista belga, que havia decidido andar a correr pela praia, sem chapéu ou boné, atrás das vacas sagradas, uma garreada asiática que lhe valeu uma corrida de táxi de trezentos quilómetros vindo algures do Norte para lhe trazer uma lamela de comprimidos, que no hotel não havia e o médico britânico de serviço desesperava com tão esparsos meios, com tantas diarreias e gente a ser encaminhada para o hospital Bandare, à beira da desidratação ou de estômago vazio, porque era normal recusar comer, tudo sabia a rosas, já se disse, e a picante, chamas diabólicas de especiarias várias, de nada servia implorar “less spicy, please, very light, everything light, no spices, please!” (…)

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São Paulo

Houve momentos em que o aparelho parecia abrandar e ficar parado no ar. Mas ele acabou por desistir de tentar distinguir as subidas das descidas. Doíam-lhe os ouvidos por causa das mudanças repentinas da pressão. E o corpo. E a alma. E o espírito. E tudo o que fazia dele um ser vivo e racional. Porque a tempestade, a verdadeira tempestade, não residia naquele cenário grotesco de faíscas arrancadas das profundezas das nuvens. Mas na longa e desprezível farsa que havia sido a sua existência. Ainda se lembrava bem, embora nunca o tenha revelado a alguém, daquele homem fardado de polícia que o mandou encostar-se à parede, de costas voltadas para ele, e lhe agarrou a nuca com força para lhe pressionar a cara contra a argamassa irregular no sopé do enorme edifício de escritórios que sabia que se erguia acima dele.
— Fica quieto e cala a boca! — rosnou-lhe o militar, enquanto um outro, prostrado mais atrás, na berma do passeio da avenida, mantinha o dedo de uma mão no gatilho de uma metralhadora HK MP5 K apontada à cabeça dele e a outra sobre uma pistola, uma Glock 18 também de nove milímetros, enfiada no coldre preso ao cinto.
– Mãos na cabeça! – voltou a ordenar o primeiro com um tom de voz ríspido, ao mesmo tempo que tentava sacar de um par de algemas. À volta dos dois agentes da Polícia Militar, havia-se juntado uma pequena multidão de transeuntes, acotovelada, com olhares tão curiosos quanto assustados, enquanto assistia com uma distância cautelosa, ditada pelo medo e uma cultura de violência, à detenção daquele desconhecido em plena rua à luz do dia, no centro nevrálgico de São Paulo. Uma ordem de prisão aparatosa porque parecia ser desproporcional, entre a atitude submissa e passiva do visado e o alarde do uso de armas de fogo para o efeito. Acrescia o SUV preto da PM, com vidros fumados e à prova de bala, imobilizado com o motor a trabalhar a poucos metros do local, em cima da calçada. Lá dentro, viam-se vários outros agentes, aparentemente em grande agitação. Na estrada, com três faixas de circulação para cada um dos dois lados, o trânsito estava completamente parado. Uma fila enorme de viaturas paralisadas no asfalto, em ambos os sentidos, embrulhada num cogumelo ascendente de fumo e gases de combustível e reflexos desiguais, de intensidade e direcção, da luz solar.
Um mupi digital com informações sobre a temperatura e a hora, plantado no piso calcetado ao lado do segundo agente da PM, indicava de forma intercalada 13:34 e 42°C.
Meditava à velocidade da luz sobre o que havia de fazer. Mas não precisou de muito tempo.
Ouviu-se o silvo de um projéctil e o homem fardado de polícia, que se preparava para o algemar, tombou de joelhos e acabou por ficar estendido por terra. Havia sido atingido na cabeça por uma bala. Uma mancha escura e viscosa começou a deslizar vagarosamente pelas pedras da calçada e pelos pedaços de massa encefálica que, com o impacto, se encontravam espalhados no passeio junto à parede do edifício, também manchada com espirros de sangue. Seguiu-se o som de uma rajada de metralhadora. E gritos. E troca de tiros. Atirou-se para o chão e sentiu uma dor forte nos cotovelos e antebraços pela forma pesada com que se deixara cair. Uma nova rajada da HK MP5 K. Disparos vindos do SUV. Alguns bursts. E a pequena multidão de pessoas a correr desordenadamente, atropelando-se, tropeçando sobre corpos já sem vida. Na estrada, soavam baques metálicos; viaturas a chocar umas contra as outras, o ronco dos motores em aceleração máxima misturado com a chiadeira de pneus a escorregar sob o asfalto, incapazes de se moverem. E mais uma turba de gente a saltar dos carros, em fuga, igualmente em gritaria.
Até que lentamente as coisas começaram a sossegar. A bordo do DC-10 da Ibéria. À medida que se fazia à pista de Barajas, em Madrid, deixando para trás, lá em cima nos céus, o manto encrespado de nuvens. Agora só faltava o voo para Lisboa.
in «A Cidade dos Sete Mares»