nação valente e imortal

(…) Estás marado ou quê?, repetiu a voz, mas Tiago Penha sabia que não era bem uma voz, mas apenas o som desordenado da sua mente a fazer eco de memórias, de frases que tinha lido, comentários que havia seguido, com paixão, com irritação, furibundo, extasiado, enlevado, naquele site, naquele fórum na web que havia criado, farto dos nítidos nulos e dos insucessos do webtracking, um espaço de discussão que depressa se transformou num avatar de confissões, primeiro a uma voz, depois a muitas, que a popularidade do sítio cresceu inesperadamente e atraiu multidões de penitentes em confissão, a busca do sacramento da reconciliação para tudo o que é irreconciliável, a tão desejada subida aos céus, até com relâmpagos e faíscas ou a possibilidade do paraíso já se ter despenhado, talvez em Fátima, algures entre Valinhos, Aljustrel e a Cova da Iria, tantos nomes e sempre a mesma peregrinação, para visitar as casas dos pastorinhos, e a Via-Sacra, e o Calvário, e os locais das aparições, não de alienígenas ou de outras entidades biológicas extraterrestres, mas de Nossa Senhora, o Anjo da Paz, Quereis oferecer-vos a Deus?, grita-se no santuário, ao lado de um pedaço de betão do muro de Berlim, ali chegado pelos bons ofícios de um emigrante português na Alemanha como “grata recordação da promessa feita por Deus para derrubar o comunismo”, obra do demo e de Karl Marx, que tanto se queria vingar daquele que governa lá em cima, mas acabou lá em baixo, enterrado, numa catedral subterrânea, como as grutas de Mira de Aire, afinal ali tão perto, do santuário e da subida aos céus, a viagem ao centro da terra, no País a que Tiago Penha estava prestes a regressar, a sua pátria e gloriosa nação, nação valente e imortal, entre as brumas da memória, sobre a terra e sobre o mar, tudo à roda num remoinho, com a poeira levantada pelo vento, e o som do pandemónio de trovões, e o bater do granizo nas superfícies de metal do avião (…)

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O desafio de descolonizar o saber

(É necessário arredar de vez a tradição filosófica do pensamento etnocêntrico, sitiada por interesses epistemológicos de orientação colonial, mas também os próprios postulados epistemológicos impulsionados pelas diásporas africanas (…) igualmente reféns não do eurocentrismo hegemónico mas do afrocentrismo fundamentalista em tudo semelhante ao primeiro)

O Ocidente continua a acumular conhecimento sobre África, enquanto os africanos continuam a trabalhar, na sua maioria, para os investigadores do Ocidente. Porque são “consultores” e investigam com o dinheiro das ONG e das agências da ONU e de outras organizações supranacionais, as que ditam os objectos de estudo, temas que são do interesse do «mundo ocidental». De resto, o uso de línguas europeias para a redacção de artigos, ensaios e dissertações académicas reforça este processo de alienação dos africanos, que, a jusante, não concorrem para o grupo de destinatários deste conhecimento. É o drama do «consultancy syndrome» e da chamada «dependência intelectual» da comunidade científica africana, consubstanciado no que poderíamos designar por «paradoxo do financiamento à investigação».

É certo que também há intelectuais e investigadores africanos que querem “conhecer-se a si próprios para se transformarem”. É fruto de uma “tomada de consciência” – uma crescente racionalização teórica – da comunidade científica, quer ocidental, quer africana, dos novos desafios epistemológicos que África, como objecto de estudo, suscita (com o esvaziamento de poder do euromundo, num quadro pós-colonial, e o fenómeno da globalização e transnacionalização), processo que, aliás, tem estado a fragmentar progressivamente a unicidade da matriz teórica em que assentavam as problemáticas africanas.

Contudo, não se pode deixar de ter em linha de conta os constrangimentos endógenos impostos pelas políticas desenvolvimentistas dos Estados pós-coloniais (que foram encaradas durante a fase inicial da autodeterminação anticolonial de inspiração nacionalista como a solução para todos os problemas). Com efeito, forçados pelo subdesenvolvimento à adopção de programas de ajustamento estrutural e aproveitando a ajuda ao financiamento por parte de várias agências da ONU e de outras organizações supranacionais, a par das ONG – e lá voltamos ao Ocidente – uma parte considerável dos Governos africanos concentrou-se num desenvolvimentismo de cima para baixo, devido ao seu alinhamento marxista. O fundamento deste movimento encontra justificação no princípio de que as transformações económicas determinam em cascata as alterações culturais nas estruturas sociais, uma perspectiva que conduz a uma imagem deformada da dinâmica da mudança social e cultural. Acresce o facto de que estas políticas desenvolvimentistas rapidamente assumiram características de manipulação e mistificação ideológica com vista à mobilização e ao alargamento da base de apoio aos respectivos regimes. Resultado: o «esforço desenvolvimentista» acabou por falir, uma vez que, por razões eminentemente políticas (considerando a natureza militarista e autoritária dos regimes que se instalaram nos territórios africanos descolonizados) não foi avaliado o paradigma territorialista e a emergência do conceito de desenvolvimento local.

Percebe-se: se os constrangimentos perante os compromissos com o Ocidente enfraqueceram a relevância da produção de conhecimento feita por africanos, a mobilização desses mesmos investigadores para o «desenvolvimentismo» conduziu a um reposicionamento de interesses traduzido pelo esvaziamento de competências. Dir-se-ia, ainda assim, que vivemos num período de transição. Mas também com muitas indefinições. Com efeito, é incontornável uma ruptura epistemológica que conduza à distinção definitiva entre africanistas e africanos, bem como entre africanismo e Estudos Africanos com vista à descolonização do capitalismo global e à emergência das epistemologias descoloniais.

Para isso, é necessário, porém, arredar de vez a tradição filosófica do pensamento etnocêntrico, sitiada por interesses epistemológicos de orientação colonial, mas também os próprios postulados epistemológicos impulsionados pelas diásporas africanas, sobretudo aqueles que foram idealizados fora do continente africano, igualmente reféns não do eurocentrismo hegemónico mas do afrocentrismo fundamentalista em tudo semelhante ao primeiro.

Sem mudar este paradigma, falar de «consciência negra» será sempre um debate estéril. É o desafio que deixamos para voltarmos ao tema na próxima edição, dedicada precisamente à problemática da negritude e ao que resultou da “invenção” do africanismo.

in «Literatas», nº53, Maputo, 08/03/12

troco o do Santo Graal pelo do Judas

(…) Cansado de observar tantas tragédias, pequenas e grandes, ditadas pelos desígnios da besta e do abutre. Porque se esta é a história da crueldade e do mal, a história de forças em conflito – a desumanidade da luta pela identidade – tanto cogitou ele sobre o assunto durante o voo entre Goa e Londres, ponto de escala para o regresso a Portugal com uma breve passagem pelo headoffice da companhia, que às vezes era necessário prestar contas, deixando para trás o cadáver de um muçulmano perdido no Índico, talvez seja de concluir que a história do abutre é afinal a história que perpassa por todas as páginas dessa mescla de livros sacralizados que o mundo cristão chama de Bíblia, se bem que no Brasil o substantivo pode denominar um indivíduo protestante, o que torna tudo ainda mais obscuro, até porque também evoca a ideia de colecção, colecção de livros ou mesmo de cromos, para fazer da Bíblia uma caderneta, ainda falta alguém aparecer com a ideia, a «Última Ceia» à da Vinci partida em quadradinhos, troco-te o do Santo Graal pelo do Judas, o Iscariotes, que desses já tens muitos repetidos (…)