Mais um que se suicidou

Mais um amigo meu que se suicidou. Na verdade, neste momento a amizade não era nenhuma. Pelo contrário. Mas chegámos a viver juntos, e com muita cumplicidade, a alucinação própria dos tempos em que sabe bem transgredir. Porque só assim pensávamos ser possível tornarmo-nos adultos.

Há alguns anos um outro amigo meu suicidou-se exactamente da mesma maneira como este, pouco depois de ter deixado conseguir usar a sua famigerada máscara da sanidade. Tal como sucedeu agora. E antes disso já tinha havido mais um, o primeiro a ceder a incapacidade de viver sob a loucura. E ainda mais um outro, que não chegou a suicidar-se, tecnicamente, mas tudo fez para morrer, até que a lotaria do destino lhe fez a vontade.

Nestas estranhas contas dos que ficam e dos que vão, tenho de registar mais dois: estão vivos, é certo, mas já não fazem parte deste mundo, pela simples razão de que decidiram afogar-se na insanidade.

Parece longo o rol. E é, com efeito. Com a particularidade de que estou a falar de amigos, mas de amigos a sério, daqueles com os quais crescemos, daqueles que ocupam para sempre as nossas memórias quando olhamos para trás e nos pomos a meditar no que fomos para sermos o que agora somos.

Não é fácil conviver com esta percepção, sobretudo quando temos pela frente a definhar aqueles que nos precederam na ordem de entrada na existência, pessoas que travam uma luta desesperada para se manterem vivas perante a evidência de que já não têm muito tempo. Nalguns casos, praticamente nenhum, pelo que a morte até seria um acto de bondade de quem manda nestas coisas. Para quem sofre a ausência de cá estar e para os que cá estão a sofrer por aqueles que se estão a ausentar.

Dizem que Deus tem desígnios insondáveis. Ao mesmo tempo que o livre arbítrio e o destino, como é bom de ver, se confrontam numa batalha titânica, que decerto não pode ser deste mundo. Não tenciono prestar homenagens a alguém, nem tão-pouco tentar avaliar os sentidos do suicídio ou da eutanásia e outras decisões afins. É que, para mim, na arena em que se manifestam as forças do bem e as forças do mal, começo a ter cada vez mais como certo um princípio: que venha o Diabo e escolha.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 20/01/13

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