A filha da putice do mundo moderno

Estes gajos foram sempre uns grandes filhos da puta. Vossa senhoria para aqui, monsieur para acolá, e os portugueses a tombar sobre terras que diziam ser tão férteis como exíguas para tantas necessidades a suprir. Do mundo cortado ao meio ao mundo fatiado conforme o desejo e a força. Mas já lá vão esses tempos. Os dos jacobinos e da maçonaria francesa, e da indecisão entre a Liberdade, Igualdade e Fraternidade e a Pax Britannica, sob o encanto da Belle Époque.

É claro que a coisa dita assim parece confusa e simplista, porquanto enferma dessa estranha arte de mesclar a História ao gosto das paixões. Mas por que razão havemos de querer ordenar o que nunca foi possível conciliar? A verdade não deve residir na interpretação mas no que é possível recordar; é certo que a memória deturpa, mas raramente diz mentiras. Sobre os sentidos que os escribas foram incapazes de registar. Não era essa a sua missão. Pelo que tudo é perdoável. Se bem que não invalide, de qualquer modo, a convicção, por sinal bastante conveniente, de que a filha da putice foi sempre a mesma. Dos franceses, dos ingleses e dos portugueses. E também dos espanhóis. E de toda a corja imperialista que fundou o novo mundo. Do hemisfério ocidental à Oceânia, que a Sul, já se sabia, ainda havia muito para descobrir. E reclamar. Como herança legítima da fé eurocentrista, pois nisto Cristo foi inequívoco, seguindo à letra os passos do Senhor seu pai e do Espírito Santo, fiel ao sacramento postular e epistolar dos textos de inspiração celestial, tanto os de outrora, das eras remotas dos filhos de Adão e Abraão, como os que se lhes seguiram, volvidos e revolvidos os túmulos dos patriarcas para semear e disseminar hordas bélicas de cristãos, judeus e muçulmanos.

E assim nasceu o mundo moderno. Ou parte dele. Abundante em grandes filhos da puta.

Em Portugal, Nação valente e imortal, do regicídio à implantação da República, embora em rigor a palavra devesse ser implante ou mesmo enxerto, que nada de verdadeiramente novo foi enraizado, por obra do nacionalismo provinciano desenhado à medida da pequena burguesia instalada nos confortos da urbis das sete colinas, evidentemente que em busca de novas mordomias, e que o bacalhau a pataco fosse à bardamerda, a filha da putice continuou a ser a mesma, agora transformada na voz íntima dos novos bons costumes, quer dizer, dos ateísmos, liberalismos e outros ismos revolucionários, incluindo a primeira institucionalização do regime de alternes, republicano, bem entendido, progressistas e regeneradores, lado a lado, ou frente a frente, ou de costas voltadas, mas ambos com aspirações messiânicas e unificadoras, e ambos em derrapagem, conduzindo a pátria para um pântano demencial de golpes e contragolpes, paradoxalmente tão palacianos e déspotas quanto a imperiosa pertinácia monárquica que visaram derrubar.

E assim se cunhou a República portuguesa, tão laica como leiga, até ao regresso d’el Rei Dom Sebastião sob a forma de um novo Estado, pelos bons ofícios e o desespero das gentes ainda com farda militar, a braços com a agonia das finanças por sanear e os indesejados resquícios jacobinos que insistiam em não dar tréguas. A direita republicana aplaudiu, alguns sectores monárquicos e católicos subscreveram. E lá a Nação acertou o passo com os afectos fascistas que seduziam a Europa. Para acossar o terror vermelho que soprava de Leste e o mercantilismo semita cada vez mais fervilhante e ameaçador que corroía os pilares do espólio imperial. Afinal, tudo um bando de ratazanas esfomeadas e uns grandes filhos da puta. De légua a légua, entre todas as léguas da enorme e velha plataforma expansionista pluricontinental, berço do mundo moderno que as caravelas uniram e desuniram, do obscurantismo medieval ao renascimento, da ciência e filosofia à magia e à feitiçaria.

Definitivamente estes gajos foram sempre a mesma merda.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 30/12/12

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1 Comentário

  1. Caro amigo:
    Portugal haveria de ser uma grande nação em um exíguo territórior , no entanto há que se despertar para o fim do complexo de coitadinho que se impregnou no povo. Portugal precisa crescer para si ao invés de exportar mão de obra para fazer os outros crescerem.
    Morei meses em Aljustrel no ano de 1998 e confesso que me fazia muita estranheza o fato de grande parte da força de trabalho portuguesa ter de ir “fazer a vida” na França ou na Alemanha, para depois retornar com algum dinheirinho no bolso e a tecer loas aos estrangeiros.
    Por outro lado fui chefe de loja de um ecomarchê e sinceramente causava-me espanto que a indústria portuguesa fosse tão pífia a ponto de tudo ter de se ir buscar no exterior.
    Ou Portugal se industrializa a valer ou vai estar sempre no buraco pois já não há mais colônias a explorar.


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