Do tempo que acreditámos ser eterno

SeteMares_20_231212No dia a seguir ao Natal fará um mês que deixei de poder falar com ela. É certo que ela ainda estará ali, algures, perdida naquele invólucro que a prende à vida, mas deixou de haver diálogos. Ou mesmo uma simples troca de olhares. Na verdade, talvez até já se tenha passado um mês desde que falei com ela pela última vez. Não me lembro, nem me consigo lembrar. Aquilo que parecia ser vulgar, rotineiro, uma visita de quando em quando, um telefonema sempre que calhava, adquiriu de repente uma importância que me é estranha. Tão estranha quanto a evidência de que nada tem de particular quando comparada com o longo solilóquio que se lhe tem seguido. De um lado e do outro. Se é que nesse existe ainda a capacidade de pensar, a possibilidade de usar palavras, mesmo que não sejam ditas nem possam ser ouvidas.

O que é que isto interessa? Nada. Rigorosamente nada. Tal como todas as palavras que partilho; mesmo as que parecem ser mais íntimas que, para alguns decerto, deveriam ser reservadas ao pudor do silêncio. Mas como é possível silenciar tantos gritos que ecoam cá dentro? O que de tão íntimo e intocável poderão ter? Poesia?! Não: apenas desespero. Um desespero dramático quando se tem tão poucos recursos. É que não conheço outra forma de o matar. O desespero. E é urgente fazê-lo.

Porque a existência humana tem destas torpezas: nunca nos diz as horas certas. Pelo que acabamos por nos atrasar. Sem nunca saber se a culpa é do tempo, que corre incerto, com uma cadência irregular e imprevisível, ou do uso que fazemos dele. Iludidos pelo compasso que, em certos dias, lá atrás, acreditámos ser eterno.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 23/12/12

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3 comentários

  1. Gostei muito!

  2. Bastante denso e profundo, adorei ler e reler. Na verdade, foi como que um choque, como um encontro esperado com um Tempo, através do qual me pego a sentir e imaginar-me Nele inserido e jogado de um lado para o outro como uma bolinha numa roleta de apostas… e o desespero me acaba sendo tão real quanto a sede de conhecer o outro lado da vida e permitir-me burlar o Tempo! Parabéns, 1 forte abraço meu,

    the ^..^ Osmar.


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