Das lágrimas que choraremos sempre

Meses antes de eu ter nascido, Lisboa foi sacudida por um forte sismo enquanto algures, lá em cima, no Espaço, os seres humanos punham os pés pela primeira vez na Lua. É claro que só soube disto mais tarde, mas lembro-me bem do dia em que se cantava «Grândola, Vila Morena» e o meu pai parecia estar inquieto a ouvir a rádio ou a olhar para um pequeno ecrã a pequeno e branco. Não me recordo das imagens que eram mostradas, mas também eu me sentia excitado, não pelo que estava a acontecer nas ruas, mas por haver tido permissão para estar acordado até tão tarde.

São memórias vagas, difusas, que apenas relaciono com 1969 ou 1974, se pensar em datas, coisa a que sinceramente nunca liguei muito. Não sei porquê, mas assim tem sido. Aliás, não foram raras as vezes em que passei vergonhas por não saber as idades do meu pai ou da minha mãe. Mesmo hoje, tenho dificuldade em verbalizá-las de imediato se mas perguntarem. Quer dizer, não hoje, não exactamente agora no momento em que escrevo estas palavras, mas até há bem pouco tempo. Porque os pais não têm idade; não envelhecem, apesar de igualmente nunca terem sido novos. Existem apenas, iguais a si próprios, como pais, que nos habituamos a olhar, com uma determinada imagem que tendemos a eternizar a partir do dia em que pensamos no assunto.

Pelo menos assim sucedeu comigo. Até há bem pouco tempo. Quando dei comigo a meditar sobre o ano de 1931. Em Portugal, Salazar subia a pulso na pirâmide do poder político; em Espanha, os nossos vizinhos estavam à beira de mergulhar numa guerra civil.

Para quem julga ser filho da geração dos anos 80, ainda a ouvir vinil e a vestir de preto, como traço distintivo da afirmação de pertencer a um grupo de vanguarda, como foi o meu caso, vasculhar os acontecimentos daquele ano tão longínquo apenas conduz ao recontro com meras curiosidades históricas. Informações enciclopédicas, impessoais, sem qualquer valor emocional.

Estou em crer que é natural. Nem sequer a guerra colonial, de que apanhei ecos na infância, me enleva em qualquer sentido. Faz parte do passado. E o presente é tão célere e volátil, que não há tempo para desvarios temporais.

Mas hoje, desde há alguns dias, tudo mudou subitamente. Tão depressa quanto a velocidade com que o tempo corre. Pela simples razão de que a minha mãe, nascida em 1931, passou a viver a prazo. Ainda por cima, desconhecido. Além de que dizer que vive é tão-somente um eufemismo para uma estranha forma de existência que não sou capaz de avaliar.

Vejo-a, mas não a reconheço. Olho-a, mas observo alguém que desconheço. Apesar de sentir que ela ainda estará ali, algures, perdida naquele invólucro que a prende à vida: um corpo danificado. Ela também não me reconhece. Nem a mim, nem a ninguém. Não fala, não se mexe. Existe, mas não na percepção daquilo que reconhecemos como vida. Ela, que me deu à luz em 1969, ela que nasceu em 1931, datas que nada me diziam, mas que agora fazem todo o sentido de serem rememoradas. Porque o tempo mudou de ritmo. Não sei se parou ou se está a correr ainda mais depressa. Apenas sei que não tenho tempo para recompor o que gostava de recompor, embora tenha todo o tempo do mundo para que este pensamento me massacre, embora tenha todo o tempo do mundo para procurar pôr no papel, com desespero, as palavras certas, que no meu entender façam justiça à minha mãe ou à memória que dela conservo, ou vou tentando conservar, antes desta forma de vida em que me dizem que ela vive e que olho sem conseguir ver.

Só me ocorrem datas, fragmentos dispersos das coisas boas que julgo que a minha mãe pôde viver. Até há pouco tempo.

Perguntam-me se estou triste, se sofro. Mas o que gostava que me perguntassem, e de ter uma resposta, é se ela está triste ou se sofre. Porque apesar de não falar nem de se mexer, receio ter-lhe já visto lágrimas. Decerto daquelas que doem de dor a sério, não obstante eu continuar a ser incapaz de perceber no diferem estas lágrimas das outras, daquelas que choramos em consciência. Das lágrimas que se choram desde sempre, das lágrimas que se choraram em 1931 ou em 1969. Das lágrimas que choramos agora e choraremos sempre.

in «Jornal da Cidade Online», Rio de Janeiro, 02/12/12

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1 Comentário

  1. Da sensibilidade,da clareza e da dor…Graça


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