Outra história inspirada em factos reais: por dentro de «O Carrossel de Lúcifer»

Outra história inspirada em factos reais. Enxertada de novo nas conversas entre Pedro Cruz e o padre com quem se encontrava quase todos os dias num bar perto de casa, uma amizade espoletada por um acidente a que ambos assitiram (o atropelamento de uma velha coberta de andrajos). Aqui a personagem nasce da sobreposição de duas pessoas que conheci, curiosamente muito semelhantes, embora distantes no tempo e no espaço (ideia que usei também no romance). Os factos descritos estáo associados a uma delas, que viveu na realidade a experiência que apresento, mas apropriei-me de alguns traços paranóides da personalidade da segunda para criar uma estrutura orgânica mais consistente.

(Excerto)

«– Pois eu também conheço uma história – continuou Pedro, com a voz um pouco arrastada, olhando para as mãos a tremer. – É a história de um homem que se tornou esquizofrénico e decidiu escrever um romance: O Engenho de Lúcifer. Creio que plagiou o título de algum livro que viu numa livraria. Andou anos a ler e reler Sartre, dizia-se existencialista e, um dia, sem mais nem menos, desapareceu. Os pais e a mulher andaram desesperados à procura dele por todo o lado, mas acabaram por dá-lo como morto. E enterraram-no mentalmente.

«Dois anos depois, ele surgiu do nada, como se nada tivesse acontecido. Apareceu de manhã no escritório onde trabalhava e chegou à noite a casa, como se em vez de dois anos só se tivesse passado um dia. Tinha enlouquecido de vez. Fez terapia, foi internado algumas vezes, mas a família chegou à conclusão de que não havia nada a fazer. Sofria de esquizofrenia e, por mais que tentassem saber, ele nada dizia quanto ao que lhe havia acontecido naqueles dois anos. Foi internado por tempo indefinido num hospício qualquer. Passado algum tempo, os antigos amigos dele começaram a receber páginas de um manuscrito. O homem havia descoberto a vocação para a escrita e começou a encher páginas compulsivamente. Como um louco. Enviou um capítulo da história a cada amigo e quando terminou o romance suicidou-se.

– De que tratava o livro? – indagou o padre.

– Não sei, não era amigo dele.»

Da realidade à ficção: por dentro de «O Carrossel de Lúcifer»

Damásio, personagem que assume um papel central enquanto catalizador das pulsões sanguinárias dos dois principais protagonistas, corresponde a uma pessoa real, cujos actos descritos em «O Carrossel de Lúcifer» aconteceram na realidade, pelo menos em parte. O estranho desaparecimento de peças de roupa íntima feminina dos estendais, numa aldeia situada algures em Portugal, deu muito que falar entre as gentes locais e o autor acabou por ser descoberto. Hoje, ainda vive por lá, entregue a misteriosas práticas onanísticas, apesar de ter deixado, tanto quanto se sabe, de assaltar a intimidade dos demais…

(Excerto do episódio de Damásio)

«Consta que Damásio saía à rua em noites banhadas pelo luar, para não perder o Norte, quando o povo há muito que ressonava e dos animais adormecidos se desprendia uma leve respiração. Deambulava pelos carreiros poeirentos sempre de gaiola na mão, como se a alma da mulher ali pudesse estar, aprisionada, velando pelas tentações da carne que cada vez mais se apossavam dele, e de quando em quando soltava uns suspiros que se sobrepunham ao som dos seus passos pouco cautelosos sobre as pedras do caminho. Chegou-se a temer definitivamente pela sua sanidade mental, mas enquanto as incursões nocturnas não se aproximaram do povoado ninguém quis fazer caso, porque um homem, quando é um homem, é livre de se perder por entre a ramagem dos campos se isso lhe der na gana, mesmo em noites de lua cheia nas quais só saem à rua as criaturas que Deus deixou extraviar.

O pior foi quando começaram a desaparecer dos estendais dos casarios peças de roupa íntima que as mulheres só pela noitinha ousavam pôr a secar e que a tantos sacrifícios tinham obrigado para serem resgatadas das vendedeiras que, de mês a mês, assomavam à aldeia. Soutiens, cuecas, cintas e meias, de vidro ou de seda, que por ali também se dava largas ao desejo ou não fossem os homens entregar as jornas às rameiras que faziam a sua aparição em dias de romaria, um pouco de cada estava a ser esvaziado dos estendais. Na homilia dominical, após a acção de devassa da intimidade colectiva ter entrado nas conversas, entre as mulheres, nos tanques onde lavavam a roupa – que apresentaram incredulidade, alguma excitação de natureza pecaminosa e muita determinação na condenação de tais actos hediondos e de maus costumes – e entre os homens, nas tabernas – que se mostraram fanfarrões mas irados contra a figura de um pervertido, por ora desconhecido, que andaria decerto extasiado a esfregar-se nas cuequinhas das filhas dos demais – o pároco lembrou os tempos do fim e o desespero do Demo cuja manifestação podia assumir as mais estranhas formas.»